Estudo aponta que evasão escolar de jovens e adultos no Brasil está ligada ao racismo estrutural e à pressão financeira
- Marcus Modesto
- 6 de set. de 2025
- 2 min de leitura
A exclusão escolar no Brasil segue marcada por desigualdades históricas e sociais. Pesquisa divulgada nesta semana pela Fundação Roberto Marinho, em parceria com o Itaú Educação e Trabalho, mostra que o abandono da escola entre jovens e adultos está diretamente relacionado ao racismo estrutural e à necessidade de trabalhar para garantir renda.
Segundo o estudo Educação de Jovens e Adultos: Acesso, Conclusão e Impactos sobre Empregabilidade e Renda, o país tem hoje cerca de 66 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não concluíram a educação básica. A maioria é formada por cidadãos negros e de baixa renda.
“Precisamos entender que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) atende majoritariamente esse público, e o programa deve dialogar com essa realidade”, afirmou Diogo Jamra, gerente do Itaú Educação e Trabalho, em entrevista à Agência Brasil.
Trabalho como obstáculo e motivação
O fator financeiro aparece como um dos principais motivos para a evasão escolar. Muitos jovens abandonam os estudos para trabalhar, mas também retornam às salas de aula em busca de melhores oportunidades no mercado. Nesse cenário, iniciativas como o programa federal Pé-de-Meia foram apontadas por Jamra como instrumentos que podem ajudar a reduzir a desigualdade de acesso.
Racismo estrutural como barreira
Outro ponto destacado é a exclusão histórica da população negra das políticas públicas. “A população negra é excluída das políticas por uma questão de racismo estrutural, que a empurra para fora das iniciativas que não dialogam com ela”, ressaltou o pesquisador.
Quem corre mais risco de evasão
A pesquisa, baseada em microdados da PNAD Contínua, analisou três grupos e identificou perfis de maior vulnerabilidade:
• Adolescentes de 15 a 20 anos no ensino regular: maior risco entre os de baixa renda, moradores de áreas rurais, alunos em atraso escolar, além de homens negros e trabalhadores.
• Jovens de 21 a 29 anos fora da escola: ingresso na EJA é mais provável entre mulheres e desempregados, mas menor entre chefes de família e trabalhadores.
• Alunos da EJA: mais propensos à evasão estão mulheres com filhos, trabalhadores com jornadas acima de 20 horas semanais, moradores da zona rural e pessoas mais velhas.
Ganhos em renda e empregabilidade
O levantamento aponta que a conclusão da EJA aumenta em 7 pontos percentuais a chance de obter emprego formal e eleva, em média, 4,5% a renda mensal. Entre jovens de 19 a 24 anos, o impacto é ainda maior: 9,6 pontos de formalização e 7,5% de aumento salarial.
Investimento e inovação necessários
Para Jamra, é urgente que o poder público coloque a EJA no centro das políticas educacionais, com mais investimento e metodologias adaptadas ao perfil dos estudantes. “Precisamos de propostas pedagógicas inovadoras, como a pedagogia de alternância, especialmente para a população do campo”, defendeu.
O estudo conclui que a integração da EJA com a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) é essencial para ampliar renda, dignidade e proteção social a milhões de brasileiros que ainda não tiveram acesso à escolarização básica.




Comentários