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Globo arma arapuca para Lula e acaba presa no próprio roteiro

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
3 de out.
3 min de leitura

Marcus Modesto

A Rede Globo preparou o que pretendia ser o grande espetáculo político da reta final do primeiro turno. Mas o roteiro saiu do controle. O debate presidencial que deveria colocar os candidatos frente a frente acabou cancelado — e a emissora terminou a noite sem o confronto que havia planejado e sem o impacto que poderia produzir com a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva.


Lula havia decidido não participar do debate. No lugar da bancada da Globo, escolheu uma entrevista ao vivo no Flow Podcast, justamente no horário em que a emissora pretendia concentrar a atenção do eleitorado. A decisão retirou da Globo uma das principais peças de seu programa eleitoral televisivo: o confronto direto com o presidente.


A situação ficou ainda mais complicada quando a Justiça Eleitoral proibiu a emissora de utilizar um púlpito vazio identificado com o nome de Lula. A decisão do TSE considerou que a exposição reiterada da cadeira vazia poderia ultrapassar a simples informação sobre a ausência e produzir efeitos sobre a percepção do eleitor.


Depois veio outra reviravolta. Uma decisão judicial determinou a inclusão de Renan Santos no debate. Flávio Bolsonaro, que inicialmente participaria, anunciou a retirada horas antes do programa. Sem Lula e sem Flávio, a Globo ficou diante de um problema que não estava previsto no roteiro original. A emissora acabou cancelando o debate.


É justamente aí que aparece a pergunta incômoda: quem controlava o espetáculo?


A Globo sempre teve enorme influência sobre a política brasileira. Durante décadas, seus debates eleitorais foram tratados como acontecimentos nacionais, capazes de pautar o dia seguinte da política e da imprensa. Só que a eleição de 2026 mostrou uma realidade diferente: o eleitor também pode assistir aos candidatos diretamente pelas plataformas digitais, sem depender da televisão aberta.


E foi exatamente isso que aconteceu.


Enquanto a Globo ficou sem debate, Lula apareceu em outro ambiente de comunicação e Flávio Bolsonaro também utilizou a internet para falar diretamente com seu público. A disputa pela audiência deixou de ser exclusivamente televisiva. A velha fórmula de concentrar candidatos, jornalistas e milhões de espectadores em um único palco encontrou um limite concreto.


A crítica de que a Globo teria preparado uma “arapuca” para Lula ganhou força justamente porque o episódio foi antecedido por uma sabatina no Jornal Nacional que já havia provocado críticas à emissora. Análises publicadas após a entrevista de 27 de agosto questionaram o tom das perguntas e a concentração do programa em temas relacionados à corrupção. Essas avaliações, porém, são interpretações de comentaristas e não comprovam, por si só, que a emissora tenha agido com o objetivo de prejudicar Lula.


Mas uma coisa é inegável: a estratégia não terminou como a Globo imaginava.


A emissora justificou o cancelamento pelas mudanças provocadas por decisões judiciais de última hora e pela insegurança jurídica criada em torno das regras do encontro. Essa é a explicação oficial da própria Globo.


O problema é que, no jornalismo, a versão oficial não encerra o debate.


A Globo poderia ter enfrentado o novo cenário, adaptado o formato e realizado o programa com os candidatos que permanecessem. Preferiu cancelar. O resultado foi um palco vazio — desta vez não para Lula, mas para a própria emissora.


O episódio expõe também uma transformação maior. A televisão continua poderosa, mas já não possui o monopólio da arena eleitoral. Um candidato pode recusar o debate tradicional e, no mesmo horário, alcançar milhões de pessoas por uma plataforma digital. Isso reduz a capacidade de qualquer grande emissora de determinar sozinha onde, quando e como ocorrerá o confronto político.


A Globo tentou preservar o controle de seu palco. Terminou sem palco.


E essa talvez seja a imagem mais simbólica desse episódio: uma emissora acostumada a organizar os grandes momentos eleitorais do país precisou cancelar justamente aquele que pretendia ser o último grande espetáculo antes da votação.


Se houve uma “arapuca”, portanto, o fato objetivo é que ela não produziu o resultado pretendido pela emissora. O debate não aconteceu, Lula não esteve no estúdio, o púlpito vazio foi barrado pela Justiça e o público encontrou outros canais para acompanhar a disputa.


No fim, a maior derrota da noite não foi necessariamente de um candidato. Foi do modelo de comunicação política em que uma única emissora acreditava ter condições de definir o centro do espetáculo.


A eleição de 2026 está mostrando que esse tempo mudou.




 
 
 

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