Imposto, saúde e o peso do futuro
- Marcus Modesto
- 20 de fev.
- 3 min de leitura
Se nada mudar, o Brasil poderá chegar a 2044 com três em cada quatro adultos acima do peso. A projeção não surge como alarmismo isolado, mas como resultado de uma tendência contínua que já transformou o excesso de peso em um dos principais desafios de saúde pública do país.
Atualmente, 57% dos adultos brasileiros vivem com sobrepeso. Mantida a curva de crescimento, o índice pode atingir 75% em duas décadas. Diante desse cenário, pesquisadores brasileiros simularam o impacto de uma política fiscal mais rigorosa sobre alimentos ultraprocessados. O estudo, publicado na American Journal of Preventive Medicine, aponta que um aumento de 50% no preço desses produtos poderia evitar cerca de 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas e até 236 mil mortes ao longo de 20 anos.
A pesquisa utilizou modelagem matemática baseada em dados nacionais de consumo alimentar e saúde. O eixo central da análise foi a elasticidade-preço — indicador que mede o quanto o consumo tende a cair quando o valor de um produto sobe. A partir da estimativa de redução no consumo, os pesquisadores projetaram impactos graduais sobre o peso corporal e, posteriormente, sobre enfermidades associadas ao excesso de peso, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença renal crônica e alguns tipos de câncer relacionados ao índice de massa corporal elevado.
No cenário com maior taxação, a prevalência de sobrepeso poderia cair para 50% até 2044. A estimativa foi considerada conservadora pelo coordenador do estudo, Eduardo Nilson, ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Brasília) e ao Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP. Segundo ele, a análise considerou apenas doenças mediadas pelo excesso de peso, sem incluir impactos diretos dos ultraprocessados independentes do IMC, o que sugere que o efeito real pode ser ainda maior.
O debate ganha relevância em meio à implementação do chamado Imposto Seletivo, previsto para entrar em vigor em 2027. O texto aprovado inclui taxação sobre produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas, mas deixou de fora uma categoria mais ampla de ultraprocessados. Durante a tramitação da reforma tributária, propostas para incluir itens como biscoitos recheados, salgadinhos, embutidos e macarrão instantâneo não avançaram no Congresso.
A resistência política foi significativa. Segundo Nilson, houve atuação intensa de setores interessados em restringir o alcance do imposto. Ainda assim, a inclusão das bebidas açucaradas é vista como avanço inicial.
Os ultraprocessados, definidos segundo a classificação NOVA — desenvolvida por pesquisadores brasileiros — são formulações industriais compostas majoritariamente por substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas, combinadas com aditivos como aromatizantes e emulsificantes. Hoje, cerca de 20% das calorias consumidas no país já vêm desse grupo. Entre crianças e adolescentes, a participação é ainda maior.
O impacto projetado vai além da balança. Doenças crônicas associadas ao excesso de peso exigem tratamento contínuo, internações frequentes e medicamentos de alto custo. A redução desses casos representaria economia potencial de bilhões de reais ao longo de duas décadas, além de aliviar a pressão sobre o sistema público de saúde.
A discussão sobre tributar ultraprocessados ultrapassa a esfera fiscal. Trata-se de decidir qual ambiente alimentar o país pretende consolidar. A política tributária pode funcionar como instrumento de correção de distorções, desestimulando produtos que contribuem para adoecimento coletivo e incentivando escolhas mais saudáveis.
O custo da inação é alto: mais de 10 milhões de novos casos de doenças crônicas atribuíveis ao excesso de peso e mais de 1 milhão de mortes nas próximas duas décadas, caso a trajetória atual seja mantida. Diante desses números, a pergunta deixa de ser se o debate deve ocorrer — e passa a ser quão disposto o país está a enfrentar interesses econômicos em nome da saúde pública.
Produtos que geram danos coletivos têm impacto que vai além da prateleira. E a conta, cedo ou tarde, chega para todos.




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