Lula intensifica diplomacia em janeiro e busca protagonismo do Brasil em cenário global turbulento
- Marcus Modesto
- 28 de jan.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu 2026 com uma ofensiva diplomática intensa, marcada por diálogos frequentes com lideranças internacionais em um momento de forte instabilidade no tabuleiro global. Só em janeiro, o chefe do Executivo brasileiro conversou com 14 chefes de Estado e de governo, sinalizando a intenção do Planalto de reposicionar o Brasil como defensor do multilateralismo, da negociação política e do respeito às normas internacionais.
A movimentação ocorreu enquanto diferentes crises se desenrolavam ao mesmo tempo: o agravamento da situação na Venezuela, o conflito na Faixa de Gaza, a escalada de tensões envolvendo a Groenlândia e disputas comerciais alimentadas por ameaças tarifárias dos Estados Unidos. Diante desse cenário, a diplomacia brasileira tem apostado na ampliação do diálogo com distintos polos de poder, evitando alinhamentos automáticos e preservando margem de autonomia.
Uma agenda plural de interlocução
A sequência de contatos começou em 8 de janeiro, quando Lula falou com Gustavo Petro, Mark Carney e Claudia Sheinbaum. No dia seguinte, conversou com o espanhol Pedro Sánchez. Em 13 de janeiro, o diálogo foi com o primeiro-ministro português Luís Montenegro, seguido, no dia 14, por uma conversa com o presidente russo Vladimir Putin. Já em 15 de janeiro, o presidente brasileiro falou com José Raul Mulino.
Na semana seguinte, Lula manteve conversas com Recep Tayyip Erdoğan, Narendra Modi, Mahmoud Abbas e Xi Jinping, ampliando o espectro de interlocutores entre Europa, Ásia e Oriente Médio. Em 26 de janeiro, dialogou com Donald Trump e, no dia seguinte, com Emmanuel Macron e Gabriel Boric. Além dos telefonemas, Lula também se encontrou com José Kast durante um evento econômico no Panamá.
Pautas sensíveis no centro do diálogo
Entre os temas recorrentes estiveram o acordo entre Mercosul e União Europeia, a crise institucional na Venezuela e a proposta de criação de um Conselho da Paz apresentada por Donald Trump. A posição brasileira tem sido a defesa da soberania nacional dos países e da primazia do direito internacional, especialmente diante de pressões territoriais e disputas comerciais.
Líderes europeus têm apontado o Brasil como um ator capaz de contribuir para a estabilidade política da América Latina. Nesse contexto, Lula optou por uma postura cautelosa em relação a Washington, evitando discursos de confronto direto, mesmo diante de divergências claras com a política externa do atual governo norte-americano.
Após o anúncio do chamado “tarifaço”, Lula e Trump mantiveram canais abertos de comunicação. Em conversa recente, ficou acertada uma reunião presencial entre os dois presidentes, prevista para março, em Washington. A expectativa brasileira é fortalecer a relação bilateral, discutir comércio e reafirmar o compromisso com regras internacionais nas relações entre Estados.
Venezuela no centro das preocupações
A crise venezuelana ganhou destaque especial na agenda diplomática. O sequestro de Nicolás Maduro, ocorrido em 3 de janeiro durante uma operação militar com envolvimento direto de tropas de elite, gerou forte reação internacional. Maduro e a esposa foram levados inicialmente a um navio militar e depois transferidos aos Estados Unidos, onde respondem a acusações e se declararam inocentes em audiência judicial.
Com a destituição do presidente, a vice Delcy Rodríguez assumiu o comando interino do país. Lula condenou publicamente a ação dos EUA, classificando a operação como uma violação dos limites aceitáveis nas relações internacionais e reiterando a posição brasileira contrária a intervenções armadas sem respaldo multilateral.
Conselho da Paz e desconfiança internacional
Outro ponto delicado foi a proposta do Conselho da Paz, apresentada por Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. A ideia prevê um organismo internacional voltado à mediação de conflitos e à reconstrução de áreas devastadas por guerras, com início na Faixa de Gaza.
A iniciativa, porém, despertou críticas imediatas. O formato concentra poder no presidente dos EUA, que teria mandato vitalício à frente do conselho e autoridade para definir a participação de países, salvo veto de dois terços dos membros. Além disso, a exigência de um aporte de US$ 1 bilhão para países interessados em assentos permanentes, com recursos sob gestão da Casa Branca, levou analistas a apontarem uma “mercantilização da paz”.
Embora cerca de 60 líderes tenham sido convidados, vários países europeus recusaram adesão, citando riscos ao sistema multilateral. Em conversa com Trump, Lula defendeu que o conselho tenha atuação restrita à dimensão humanitária em Gaza e inclua representação da Palestina.
Groenlândia e a disputa no Ártico
As tensões envolvendo a Groenlândia também entraram na pauta internacional. Trump voltou a declarar interesse em anexar o território autônomo da Dinamarca, alegando razões de segurança nacional e citando a instalação do chamado Domo de Ouro, um sistema antimíssil planejado pelos EUA.
O presidente norte-americano acusou a Dinamarca de fragilidade na proteção da ilha contra suposta influência russa e ameaçou retaliações comerciais a países europeus que se opusessem aos planos. Em resposta, Alemanha, França, Suécia, Noruega, Finlândia e Holanda enviaram contingentes simbólicos à Groenlândia, em um gesto político de resistência.
Além do valor estratégico no Ártico, a ilha concentra reservas significativas de terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica. O controle da região ampliaria a influência militar e econômica dos EUA em meio à competição com China e Rússia. Apesar do discurso duro, o governo Trump afirma negociar com a Dinamarca e com a OTAN a ampliação da presença militar, defendendo “acesso total” ao território e cessões para bases estratégicas, sem confirmar uma anexação forçada.




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