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Mercado do crime: Roubos de celular no Rio alimentam rede sofisticada de desbloqueio e revenda ilegal

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 22 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

O aumento dos roubos de celulares no Rio de Janeiro escancara mais do que um problema de segurança pública — revela um ciclo criminoso consolidado, com redes que conectam assaltos, desbloqueio clandestino, revenda e receptação em larga escala. A nova edição do Mapa do Crime, publicada pelo jornal O Globo, traz dados inéditos que ajudam a entender como bairros com maior número de ocorrências se relacionam com comunidades dominadas por facções criminosas e centros comerciais usados para escoar os aparelhos roubados.


Um episódio recente ilustra o funcionamento dessa engrenagem. A poucos metros da 19ª DP, na Tijuca, uma servidora pública e sua família foram assaltadas por criminosos armados. Levaram quatro celulares. Dias depois, um dos aparelhos foi rastreado no Morro do Fallet, reduto do Comando Vermelho. A investigação apontou que o destino final seria o Camelódromo da Uruguaiana, no Centro — um conhecido polo de comércio ilegal de eletrônicos.


Apesar de ser um roteiro já conhecido da polícia, o combate a esse mercado paralelo esbarra em sua capilaridade. Apenas dez dos 147 bairros analisados concentram um terço dos mais de 14 mil roubos registrados em 2024. O Centro lidera com folga: 1.622 casos. Em seguida aparecem Tijuca (581), Maracanã (455), Barra da Tijuca (424) e Botafogo (423). Este último viu os roubos mais do que dobrarem em um ano.


A explicação, segundo a polícia, está na alta circulação de pessoas e na proximidade com pontos de revenda. “Estar perto de um centro comercial facilita a operação criminosa. São áreas que atraem compradores e permitem escoamento rápido dos produtos”, observa o sociólogo Daniel Hirata, da UFF.


A rota da criminalidade ficou ainda mais clara após uma operação da Polícia Civil, três dias após o roubo na Tijuca. A ação mirava um carregamento de drogas no Morro do Fallet, mas acabou revelando uma central clandestina de desbloqueio de celulares. Em um bar da Rua Guaicurus, agentes encontraram cinco toneladas de maconha, 200 celulares roubados na Região Metropolitana naquela mesma semana, além de notebooks e ferramentas de reprogramação.


Entre os presos estava Patrick Fontes Souza da Silva, conhecido da polícia por atuar no comércio ilegal desde 2018. Começou com uma loja na Uruguaiana e depois migrou para o Fallet, operando com “aluguel” pago ao tráfico. O esquema envolvia assaltantes — que recebiam até 30% do valor de revenda — técnicos de desbloqueio e revendedores. Os aparelhos, já “limpos”, voltavam às bancas no Centro, muitas vezes comprados por consumidores desavisados.


A delegada Kely de Araújo Goularte destaca a importância do número do IMEI no combate a essa cadeia. “O IMEI é como a placa de um carro. Sem ele, é quase impossível rastrear e devolver o aparelho à vítima”, alerta. Dos celulares apreendidos, metade foi restituída. Os demais continuam retidos por falta de registro.


A reincidência é outro entrave. Patrick Silva já havia sido preso duas vezes por receptação, mas foi solto poucos dias depois. Hoje cumpre pena de 12 anos por tráfico e associação. Sua defesa nega as acusações. Outro nome recorrente nas investigações é Maurício Bandeira Lage, o “Azulão”, com seis prisões entre 2022 e 2025. Mesmo monitorado por tornozeleira eletrônica, burlava o sistema para continuar cometendo assaltos. Está preso, aguardando julgamento por 12 crimes.


Diante da escalada de roubos, os cariocas se adaptam como podem. Muitos circulam com um celular reserva — um aparelho antigo usado exclusivamente para ser entregue em caso de assalto. A estratégia se tornou comum principalmente nas áreas consideradas “pontos quentes”.


Estudo da economista Joana Monteiro mostra que 5% do território do Rio concentram metade dos crimes de rua. E esses locais raramente mudam: Centro, Madureira, Pavuna, Bangu e Tijuca permanecem no topo do ranking da violência. “É um padrão tão constante que parece uma lei natural. A resposta precisa ser direcionada e focada nessas áreas específicas”, defende Monteiro, que dirige o Laboratório para Redução da Violência (Leme).


A persistência do problema revela uma engrenagem bem definida: da ponta do assalto até a revenda, passando por núcleos de desbloqueio e receptação, há um sistema montado que segue funcionando apesar das operações policiais. Combater os roubos de celulares, portanto, não é apenas uma questão de policiamento ostensivo, mas de desmontar um mercado que se alimenta da impunidade, da demanda e da organização de redes criminosas.


TOP 10 – Bairros com mais roubos de celular em 2024:

1. Centro – 1.622 ocorrências

2. Tijuca – 581

3. Maracanã – 455

4. Barra da Tijuca – 424

5. Botafogo – 423

6. Realengo – 371

7. Bangu – 350

8. Madureira – 294

9. Campo Grande – 288

10. Pavuna – 259


 
 
 

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