O PowerPoint custou caro — e a conta, enfim, chegou para Deltan Dallagnol
- Marcus Modesto
- 29 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
A justiça tarda, mas às vezes chega com recibo. O ex-procurador Deltan Dallagnol, símbolo da Operação Lava Jato e artífice de uma das apresentações mais constrangedoras da história recente do Ministério Público brasileiro, foi condenado a pagar R$ 135 mil ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por danos morais. A decisão é definitiva, sem possibilidade de recursos. O motivo: o infame “caso do PowerPoint”, aquele espetáculo midiático em que Dallagnol apontava Lula como “grande general” de um esquema criminoso — sem apresentar, à época, uma denúncia formal compatível com as acusações.
O episódio aconteceu em 2016, mas seu impacto ainda reverbera na política, no Judiciário e na opinião pública. Aquela apresentação — transmitida ao vivo, recheada de linguagem inflamada e gráficos dignos de uma teoria da conspiração — serviu menos à Justiça e mais à guerra de narrativas. Com Lula no centro de um organograma cercado por palavras como “proprinocracia” e “perpetuação criminosa no poder”, a imagem foi construída para colar uma condenação moral antes mesmo do julgamento legal. E colou — por um tempo.
Agora, com a decisão transitada em julgado no Tribunal de Justiça de São Paulo, a Justiça reconhece que Dallagnol abusou de suas prerrogativas funcionais e extrapolou os limites do cargo que ocupava. Não foi um procurador que falou ali. Foi um militante, um acusador político travestido de servidor público, que usou o aparato do Estado para fazer campanha — e não uma denúncia responsável.
A Lava Jato teve méritos, é verdade, ao enfrentar um sistema de corrupção entranhado nas relações entre poder público e privado. Mas também teve seus excessos, seus abusos e sua arrogância institucional. O caso de Dallagnol simboliza justamente essa fronteira ultrapassada, em que a busca por justiça se transformou em perseguição personalista. A condenação não reescreve o passado, mas impõe um mínimo de reparação simbólica àquele que, goste-se ou não, teve seus direitos políticos restabelecidos após o Supremo Tribunal Federal anular suas condenações por falhas processuais graves.
Curiosamente, o advogado que iniciou essa ação foi Cristiano Zanin, hoje ministro do STF — mais uma ironia dessa longa novela jurídica e política. Mas o que realmente importa aqui não é o destino pessoal de Lula ou de Dallagnol, e sim o recado institucional: não há espaço para procuradores justiceiros que fazem conferências de imprensa como se estivessem lançando um dossiê partidário. A Justiça não pode ser espetáculo. Nem palco de vaidades.
A conta de R$ 135 mil é simbólica. Não compensa os danos morais, políticos e históricos que o PowerPoint causou. Mas representa um freio — ainda que tardio — ao uso indevido da máquina pública como instrumento de linchamento político. É uma vitória para o Estado de Direito. E um lembrete de que, no fim das contas, até o mais midiático dos slides pode sair caro.




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