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OPINIÃO | A Maldição da Amarelinha

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Por Marcus Modesto


O Brasil perdeu.


De novo.


E, para tornar tudo ainda mais simbólico, perdeu para a Noruega.


A Noruega.


Aquela seleção que, durante décadas, aparecia no mapa do futebol brasileiro apenas como resposta de pergunta difícil em programa de auditório. A mesma Noruega que entrou em campo vestindo vermelho. Vermelho vivo. Vermelho escancarado.


Foi uma ironia tão grande que parecia roteiro escrito por algum humorista com gosto por provocações políticas.


De um lado, o Brasil com sua famosa camisa amarela.


Do outro, a Noruega toda de vermelho.


Resultado?


Vermelho 2.


Amarelo 1.


Se isso não é ironia do destino, o destino precisa contratar roteiristas melhores.


Existe uma teoria que os cientistas ainda se recusam a estudar por medo das consequências: a partir do momento em que a camisa da Seleção Brasileira foi sequestrada pela política, ela perdeu seus poderes.


Antes, a amarelinha entrava em campo carregando o peso de Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo Nazário e tantos outros monstros sagrados.


Hoje ela entra carregando corrente de WhatsApp.


É muito peso.


A camisa que já levantou cinco Copas do Mundo virou uniforme oficial de discussão política de fim de semana.


O sujeito veste a amarelinha e, antes mesmo de falar sobre futebol, já quer discutir urna eletrônica, Supremo, comunismo, globalismo, extraterrestres e o preço da picanha.


Enquanto isso, os adversários treinam futebol.


Talvez esteja aí o segredo.


Nos últimos anos, a Seleção virou especialista em transformar esperança em meme.


Troca técnico como quem troca senha de aplicativo.


Anuncia renovação e entrega repetição.


Promete espetáculo e apresenta PowerPoint.


A cada eliminação surge uma nova explicação.


É culpa do gramado.


É culpa do calendário.


É culpa do árbitro.


É culpa do fuso horário.


Nunca é culpa da bola mal jogada.


Mas a derrota para a Noruega trouxe um ingrediente especial.


A camisa vermelha.


Foi como se o universo resolvesse fazer uma piada pronta.


Os mesmos grupos que passaram anos tratando a camisa amarela como patrimônio exclusivo de um lado político assistiram justamente uma equipe de vermelho mandar o Brasil para casa.


Nem o mais criativo dos cronistas teria coragem de inventar uma metáfora dessas.


E o pior é que a maldição parece ganhar força.


Desde que a amarelinha deixou de unir brasileiros e passou a dividir brasileiros, a Seleção coleciona decepções com a regularidade de um relógio suíço.


O medo já não é enfrentar Alemanha, Argentina, França ou Espanha.


Agora qualquer país que tenha fiorde, bacalhau ou aurora boreal já entra em campo sem complexo de inferioridade.


A verdade é que a camisa amarela nunca foi de partido nenhum.


Ela era do torcedor.


Do churrasco de domingo.


Do radinho de pilha.


Da rua fechada para pelada.


Do grito de gol que fazia o país inteiro esquecer seus problemas por alguns minutos.


Quando tentaram transformá-la em bandeira de um grupo, ela perdeu parte da sua magia.


E talvez a derrota para a Noruega seja apenas mais um capítulo dessa história.


Uma história em que a política entrou em campo, mas o futebol resolveu ir embora mais cedo.


No fim das contas, fica a lição.


A amarelinha nasceu para levantar taças.


Não para levantar discussão em grupo de WhatsApp.


Porque quando a camisa deixa de representar todos os brasileiros, ela corre o risco de não representar mais ninguém.


E hoje, diante de uma Noruega vestida de vermelho, a ironia entrou em campo, driblou a defesa inteira e marcou dois gols.



 
 
 

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