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PEC da blindagem parlamentar: um retrocesso travestido de prerrogativa

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 28 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Enquanto o Brasil enfrenta escândalos de corrupção e a crescente infiltração do crime organizado nas estruturas políticas, o Congresso Nacional articula uma proposta que soa menos como defesa da democracia e mais como um projeto de autoproteção. Trata-se da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que busca limitar a atuação da Justiça sobre deputados e senadores, blindando-os de medidas cautelares e afastamentos.


Pela proposta, parlamentares só poderiam ser afastados em casos de prisão em flagrante por crime inafiançável — e, ainda assim, a decisão final caberia à própria Câmara ou ao Senado. Medidas como prisão domiciliar ou outras que afetem diretamente o exercício do mandato só poderiam ser aplicadas se confirmadas pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).


“Salvo-conduto para crimes”


O texto em discussão provocou reação imediata dentro da Procuradoria-Geral da República (PGR). Três procuradores ouvidos pelo jornal O Globo foram unânimes em apontar a proposta como um retrocesso institucional. Um deles resumiu:


“Um Congresso que se preocupa em não ser preso diz muito de si. É a busca de um salvo-conduto para cometer mais crimes.”


Outro subprocurador foi ainda mais direto: a PEC traduz um “desejo coletivo de impunidade”, num cenário já saturado por denúncias contra políticos que se valem do cargo para se proteger. A crítica vai além da técnica jurídica: evidencia que o Legislativo parece legislar em causa própria, buscando ampliar privilégios em detrimento do interesse público.


Porta aberta ao crime organizado


Há ainda o temor de que a proposta estimule a infiltração de organizações criminosas no Parlamento. Com a garantia de que seus representantes estariam blindados contra investigações, facções poderiam intensificar esforços eleitorais para eleger seus “porta-vozes” oficiais. Um procurador foi taxativo:


“O crime organizado vai querer eleger seus homens para lhes garantir imunidade.”


O alerta não é abstrato. Nas eleições municipais de 2024, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro precisou alterar 53 locais de votação em dez cidades, justamente para reduzir riscos de coação de eleitores por grupos criminosos.


Imunidade ou impunidade?


O ponto mais polêmico da PEC é a ampliação da interpretação da imunidade parlamentar. Hoje, a Constituição já prevê que deputados e senadores não podem ser responsabilizados por “opiniões, palavras e votos”. O STF, no entanto, adota entendimento restritivo, afastando discursos que não tenham relação direta com o exercício do mandato. Foi com base nisso, por exemplo, que o tribunal aceitou denúncia contra Jair Bolsonaro em 2016 por declarações ofensivas contra a deputada Maria do Rosário.


Na prática, a PEC tenta flexibilizar esse entendimento, criando um escudo quase absoluto para parlamentares. Como definiu um procurador da República:


“A proposta contém dispositivos que transformam imunidade em impunidade e restringem a atuação própria do Judiciário. O risco de retrocesso é evidente.”


Democracia em xeque


O silêncio do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) sobre o tema é, no mínimo, preocupante. Enquanto a cúpula hesita, membros da própria PGR já apontam que a PEC pode corroer pilares básicos do Estado de Direito.


O que está em jogo não é apenas uma disputa entre poderes, mas o futuro da democracia brasileira. Blindar parlamentares de investigações e punições não fortalece a representação popular; apenas reforça a percepção de que o Congresso legisla para si mesmo, distante das necessidades da sociedade.



 
 
 

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