Políticos fortalecem influência em áreas dominadas pelo tráfico no Rio
- Marcus Modesto
- 18 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
A relação entre política e crime organizado ganha novos contornos na região do Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A influência do deputado estadual Val Ceasa (PRD) e do ex-vereador Ulisses Marins (União) nas áreas controladas pelo traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, não se limita ao discurso eleitoral – ela se traduz em números expressivos nas urnas e em tentativas de interferência direta em ações do poder público.
Segundo reportagem do jornal EXTRA, em dezembro de 2023, ambos os políticos solicitaram à Polícia Militar que não demolisse um resort ilegal construído pela quadrilha em Parada de Lucas. O pedido, embora negado por Val Ceasa, foi confirmado por quatro fontes de diferentes órgãos públicos. Na ocasião, a mobilização para derrubar a estrutura foi suspensa, e a demolição só ocorreu em março deste ano.
Os números das últimas eleições reforçam a força política da dupla na região. Em 2024, mesmo sem conseguir se reeleger como vereador, Ulisses Marins foi o candidato mais votado em 22 dos 32 pontos de votação analisados em Vigário Geral, Cordovil, Parada de Lucas e Brás de Pina. Nessas áreas, onde o tráfico impõe suas regras, Marins teve cerca de 10 mil dos seus 17.858 votos totais – um domínio impressionante em comparação com outros candidatos. Carlos Bolsonaro (PL), o vereador mais votado na cidade, obteve apenas 1,5 mil votos nesses mesmos locais.
A cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, aponta que esse fenômeno não é casual. Para ela, há políticos que constroem sua popularidade em plataformas amplas, enquanto outros se especializam em territórios específicos, onde oferecem assistência social e cultivam relações diretas com a população. Esse tipo de atuação, embora legal em muitos aspectos, levanta suspeitas quando ocorre em áreas sob forte controle de organizações criminosas.
A parceria entre Val Ceasa e Marins mostra-se ainda mais evidente nas seções eleitorais próximas ao resort demolido. Na Escola Municipal Roraima, em Cordovil, Marins recebeu 1.315 votos – cinco vezes mais do que o segundo colocado, Robson Teixeira, que, por sua vez, também contava com o apoio de Val. Na Assembleia de Deus Central de Cordovil, a vantagem se repetiu: 660 votos para Marins contra 139 para Teixeira.
O desempenho de Val Ceasa em 2022 segue o mesmo padrão. Ele venceu em 30 dos 33 locais de votação no Complexo de Israel, consolidando sua posição como o candidato preferido na área. Na Igreja Presbiteriana de Cordovil, por exemplo, obteve 195 votos, enquanto o segundo colocado, Alexandre Molina Santos (PDT), teve apenas 53.
A relação entre políticos e áreas dominadas pelo tráfico não é uma novidade no Rio de Janeiro, mas casos como este reforçam as preocupações sobre a influência do crime organizado no processo democrático. A mobilização de eleitores em regiões onde o tráfico exerce controle rígido sobre o cotidiano levanta questionamentos: trata-se de popularidade legítima ou do uso da força para garantir resultados eleitorais?
Enquanto Ulisses Marins se recusa a comentar as acusações, Val Ceasa nega ter interferido para impedir a demolição do resort, embora se declare contra a destruição do espaço. Ainda assim, o fato de seus nomes estarem estampados em uma faixa no local, sugerindo a existência de um projeto social, alimenta as suspeitas sobre a proximidade entre os políticos e os interesses do crime organizado.
Em um cenário em que a linha entre poder público e crime se torna cada vez mais tênue, casos como esse reforçam a necessidade de maior fiscalização e transparência, para que as urnas não se tornem um reflexo da força de facções criminosas em vez da vontade livre e soberana dos eleitores.




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