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Quando a regra vira exceção permanente

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 28 de mar.
  • 2 min de leitura

Algo está fora do lugar — e não é apenas mais uma crise política. O Rio de Janeiro sempre conviveu com turbulências institucionais, isso não é novidade. A diferença agora é outra: não há mais referência estável. Não há roteiro minimamente previsível. O que existe é um ambiente onde as regras parecem ser reescritas enquanto o jogo ainda está em andamento.


A decisão do ministro Cristiano Zanin, ao barrar a eleição indireta e manter o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro no comando do estado, não acalmou o cenário. Pelo contrário. Aumentou a sensação de que o centro das decisões deixou de ser político — e passou a ser técnico, jurídico, distante da lógica da urgência social.


O problema não está apenas na interferência entre os poderes. Está na frequência com que isso acontece. O Executivo perde direção, o Legislativo tenta se recompor e o Judiciário, pouco a pouco, ocupa um espaço que deveria ser excepcional — mas já não parece mais.


As siglas se acumulam: TJRJ, TRE-RJ, STJ, TSE, STF. E, com elas, cresce a percepção de que o estado já não conduz o próprio destino. Cada passo relevante depende de uma decisão judicial que pode ser revertida em questão de horas.


Enquanto isso, os personagens seguem em movimento.


Cláudio Castro articula nos bastidores. Eduardo Paes ocupa espaço com habilidade, escolhendo cuidadosamente cada posicionamento. Douglas Ruas age com cautela, entendendo que o epicentro da disputa já não está apenas no Palácio Guanabara, mas também dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.


A presidência da Alerj deixou de ser um cargo institucional comum. Tornou-se peça estratégica. É ali que se desenha o caminho de um eventual governo tampão. É ali que se decide mais do que nomes — se decide o ritmo da própria crise.


E tudo isso acontece sob a sombra de 2026.


A eleição ainda não começou oficialmente, mas já influencia cada movimento. Está nas entrelinhas, nas falas calculadas, nas ausências estratégicas. Está no silêncio tanto quanto no discurso. A política não parou — apenas mudou de forma.


O cenário mais preocupante, porém, não é a disputa em si. É a ausência de clareza institucional. Ninguém afirma com segurança qual será o próximo passo. Eleição direta ou indireta. Decisão individual ou colegiada. Permanência ou ruptura. Cada semana concentra uma tensão que, em tempos normais, levaria meses para se formar.


Isso não fica restrito aos gabinetes.


A instabilidade escorre para dentro da máquina pública. Paralisa decisões, embaralha prioridades e transforma o governo em uma estrutura reativa. Um estado que não sabe quanto tempo tem deixa de planejar. Passa a sobreviver no curto prazo.


E há um elemento ainda mais sensível: o avanço silencioso da política dentro do ambiente judicial. Não por declarações explícitas, mas pelo peso eleitoral que cada decisão passou a carregar. Isso altera o equilíbrio. Torna tudo mais volátil, mais imprevisível.


No fim, o que se vê é um estado onde a exceção virou rotina. Onde a regra já não orienta — apenas reage.


E o cidadão assiste a tudo tentando entender quem governa, por quanto tempo e sob quais condições. Perguntas simples que hoje não têm respostas simples.


A perplexidade, neste momento, não é exagero. É diagnóstico.


E o mais inquietante: ainda estamos longe do ponto de estabilidade.



 
 
 

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