Quando o Palanque Vira Camarote
- Marcus Modesto
- 1 de jul.
- 2 min de leitura
Por Marcus Modesto
A inauguração da transposição ferroviária na Barbará entregou muito mais do que um viaduto. Entregou uma fotografia que merece ser guardada nos arquivos da política regional.
De um lado, o deputado do PT Lindbergh discursando. Do outro, Rodrigo Drable observando atentamente, com um sorriso daqueles que nenhum assessor de comunicação conseguiria planejar melhor.
Não era apenas um olhar. Era quase uma contemplação.
Parecia alguém assistindo ao último capítulo da novela depois de perder os capítulos anteriores.
A cena ganha um tempero especial porque o assunto da festa não era qualquer obra. Tratava-se justamente de uma intervenção que se arrasta há anos, atravessou governos, enfrentou atrasos, burocracias e uma coleção de promessas políticas que daria para encher um caminhão de concreto.
E aí surge a pergunta inevitável: quem, afinal, construiu essa obra?
Pela animação de alguns presentes, o observador desavisado poderia concluir que todos ali passaram anos carregando vigas nas costas, assentando pilares e resolvendo problemas de engenharia.
Mas a realidade é um pouco menos cinematográfica.
A maior parte dos protagonistas da foto chegou quando a ferragem já estava pronta, o concreto já havia secado e a faixa de inauguração já estava encomendada.
A política brasileira tem esse talento extraordinário: quando a obra está parada, ninguém aparece para a fotografia. Quando a obra fica pronta, falta espaço no enquadramento.
E Rodrigo, ali, parecia bastante confortável no papel de espectador privilegiado.
O sorriso era tão espontâneo que quase dava a impressão de que Lindbergh estava anunciando uma homenagem em sua honra.
Enquanto isso, o cidadão comum observava a cena tentando entender a lógica.
— Eles eram adversários?
— São aliados?
— Estão apenas dividindo o palco?
— Ou estão disputando quem aparece mais na foto?
Ninguém sabe ao certo.
A única certeza é que o viaduto foi inaugurado e a fotografia acabou se transformando em um espetáculo paralelo.
Porque obras públicas têm uma característica curiosa: pertencem ao povo, são pagas pelo contribuinte, executadas ao longo de anos e, no dia da entrega, acabam parecendo patrimônio temporário dos políticos que conseguem chegar mais perto do microfone.
No fim, a imagem registra um momento raro.
Lindbergh falava.
Rodrigo admirava.
E o viaduto, silencioso ao fundo da história, talvez fosse o único personagem daquele evento que realmente tinha trabalhado para estar ali. Afinal, foi ele quem passou anos suportando o peso de promessas, discursos e inaugurações anunciadas antes da hora.
Agora, finalmente pronto, teve que suportar mais uma coisa: os aplausos de quem apareceu para cortar a fita.




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