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R$ 8,6 milhões no Natal: enquanto isso, Barra Mansa enfrenta crise na saúde e nas contas públicas

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
há 41 minutos
4 min de leitura

Contrato assinado pela Prefeitura prevê R$ 8.687.000 para ornamentação, iluminação e cenografia natalina. Enquanto isso, cidade enfrenta problemas previdenciários, dificuldades na saúde e cobranças sobre a capacidade financeira do município


O prefeito Luiz Furlani anunciou que Barra Mansa terá “o melhor Natal da história da cidade”. Agora, um documento obtido pela reportagem mostra o tamanho da estrutura que a Prefeitura pretende colocar nas ruas: R$ 8.687.000,00.


O valor consta do Contrato nº 033/2026, vinculado ao Pregão nº 35/2026 e à Ata nº 06/2026, assinado em 27 de agosto de 2026. O contrato tem vigência até 27 de agosto de 2027 e está classificado como prestação de serviço.


A empresa contratada é a FR Comércio e Serviços Ltda., inscrita no CNPJ nº 38.234.098/0001-14.


O objeto é explícito: contratação de empresa especializada para a execução integrada da ornamentação, iluminação e cenografia temática do evento natalino no município de Barra Mansa.


Valor: R$ 8,687 milhões.


E é justamente esse número que muda a discussão.


Não se trata mais apenas de uma promessa política de um Natal grandioso. Existe um contrato formal, com valor definido, empresa contratada e objeto determinado.


A pergunta, portanto, deixa de ser quanto a Prefeitura pretende gastar.


A pergunta agora é: por que essa é uma prioridade neste momento?


R$ 8,6 milhões diante de uma cidade que enfrenta dificuldades


Barra Mansa não chega ao Natal de 2026 em uma situação financeira confortável.


Em fevereiro, a própria administração Furlani decretou situação de calamidade financeira na área da assistência social após a identificação de um desfalque nos fundos vinculados à pasta. A medida foi adotada para garantir a continuidade de serviços essenciais.


Na Previdência municipal, a situação também exige atenção.


A Prefeitura precisou recorrer a um parcelamento de débitos patronais com o Previbam referentes a parte das contribuições de 2025 e ao 13º salário daquele ano. O planejamento municipal, por sua vez, prevê uma forte participação do Tesouro no custeio de aposentadorias e pensões do plano financeiro do instituto.


Ao mesmo tempo, o próprio Portal da Transparência mantém registros mensais da folha de benefícios do Previbam, demonstrando o peso permanente dessa despesa para as contas públicas.


Não é apenas uma questão de números.


São aposentados e pensionistas que dependem do pagamento para comprar comida, medicamentos, pagar aluguel e manter suas famílias.


E a saúde?


Talvez seja na saúde que a contradição fique mais evidente.


A Oncobarra, referência regional no tratamento contra o câncer, enfrenta uma crise financeira provocada pela falta de regularidade dos repasses estaduais.


A Câmara Municipal informou que o problema afetou o pagamento de fornecedores e médicos e chegou a provocar a interrupção de novos atendimentos.


Segundo o Legislativo, o governo federal repassa cerca de R$ 900 mil mensais à unidade, enquanto o Estado deveria complementar os recursos com aproximadamente R$ 600 mil, além de valores relativos ao atendimento acima do teto pactuado.


Em maio, a crise era descrita na Câmara como uma situação em que a dívida do Estado com a Oncobarra se aproximava de R$ 20 milhões.


A gravidade não é pequena.


A própria Prefeitura informou anteriormente que a unidade realizou mais de 20 mil atendimentos ambulatoriais, mais de 12 mil quimioterapias e centenas de cirurgias e radioterapias, atendendo pacientes de Barra Mansa e de outros municípios.


Portanto, quando faltam recursos e médicos deixam de receber, o problema ultrapassa a contabilidade.


Chega ao paciente.


E, no caso da oncologia, chega justamente a pessoas que não podem esperar indefinidamente por uma solução administrativa.


O contraste que incomoda


É impossível ignorar o contraste.


De um lado, uma cidade que enfrenta problemas de financiamento da saúde, dificuldades previdenciárias e necessidade de reorganização das contas públicas.


Do outro, um contrato de R$ 8,687 milhões para ornamentação, iluminação e cenografia natalina.


É importante deixar claro: o contrato, isoladamente, não comprova irregularidade.


Também não significa que a Prefeitura não possa investir no Natal.


O comércio precisa ser movimentado. O Centro precisa receber consumidores. Eventos podem gerar circulação de pessoas e beneficiar lojistas.


Mas dinheiro público exige prioridade, planejamento e transparência.


E, diante de um contrato dessa dimensão, algumas perguntas são inevitáveis.


Quanto será efetivamente pago em 2026?


Qual será o cronograma de desembolso?


Haverá pagamentos mensais?


Qual será o impacto da despesa sobre o orçamento municipal?


Existe previsão de patrocínios ou outras receitas para reduzir o custo aos cofres públicos?


Qual é a estimativa de retorno econômico para o comércio?


E, principalmente:


qual estudo demonstrou que R$ 8,687 milhões investidos em ornamentação natalina representam uma prioridade adequada diante das necessidades da cidade?


O “melhor Natal” precisa vir acompanhado de transparência


Furlani afirmou que Barra Mansa terá “o melhor Natal da história”.


Agora, com o contrato em mãos, a população pode cobrar algo mais importante do que uma decoração bonita:


a melhor explicação sobre o uso do dinheiro público.


Porque R$ 8,687 milhões não são uma quantia simbólica.


São recursos que poderiam financiar diferentes políticas públicas, e a escolha de onde aplicar esse dinheiro precisa ser explicada à população.


Quanto custa um Natal?


Essa pergunta já tem resposta.


R$ 8.687.000,00.


Agora falta responder quanto a cidade espera receber de volta.


A prioridade do governo


O debate não deveria ser Natal contra saúde.


Não é isso.


O debate é sobre prioridade, capacidade financeira e oportunidade.


Se existe dinheiro suficiente para um investimento dessa magnitude sem comprometer aposentadorias, saúde, educação, transporte, infraestrutura e demais serviços públicos, a Prefeitura deve apresentar os números.


Se o gasto não compromete essas áreas, que os dados sejam divulgados.


Mas se a cidade enfrenta dificuldades financeiras e, simultaneamente, assume um compromisso de quase R$ 9 milhões para decoração natalina, é natural que o contribuinte questione as escolhas administrativas.


Quem está esperando atendimento médico quer saúde.


Quem espera aposentadoria quer receber em dia.


O professor quer valorização.


O usuário do transporte quer um serviço que funcione.


O comerciante quer vender.


E o cidadão que paga impostos quer saber se o dinheiro está sendo usado naquilo que considera essencial.


O Natal pode ser bonito.


Pode movimentar o comércio.


Pode trazer famílias para o Centro.


Mas uma administração pública não pode ser avaliada apenas pela quantidade de luzes que consegue colocar nas ruas.


Uma cidade também precisa estar iluminada nas contas públicas, na saúde, na educação e nos serviços essenciais.


E agora existe um documento oficial mostrando que, para o Natal de Barra Mansa, a Prefeitura reservou uma cifra que merece ser explicada à população: R$ 8.687.000,00.


Foto Divulgação




 
 
 

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