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UFRJ entrega diplomas póstumos a 23 estudantes mortos pela ditadura militar

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
10 de set.
3 min de leitura

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) transformou, nesta quarta-feira (9), memória em reconhecimento ao realizar uma cerimônia de diplomação póstuma de estudantes e professores perseguidos, torturados ou mortos durante a ditadura militar. Ao todo, 23 estudantes receberam o diploma de graduação que não puderam conquistar em vida, além de dois professores e pesquisadores que tiveram suas trajetórias interrompidas pelo regime.


Entre os homenageados está Fernando Augusto da Fonseca, estudante de Economia cuja história revela a dimensão da violência sofrida por militantes durante o período autoritário.


Há 53 anos, Fernando foi preso em Recife, depois de deixar o Rio de Janeiro em uma tentativa de escapar da repressão política. Militante do movimento estudantil, ele havia sido expulso da UFRJ, perdido o emprego e abandonado a vida que levava na capital fluminense.


No Nordeste, porém, acabou novamente capturado. Fernando permaneceu durante cerca de 20 dias em uma dependência do Exército, onde foi submetido a torturas. Enquanto isso, sua mulher, grávida, e o filho de apenas três anos ficaram detidos em um hotel.


A família só foi libertada após o assassinato de Fernando e a entrega de seu corpo.


Décadas depois, o diploma que deveria ter recebido como estudante de Economia foi entregue ao filho, o administrador André Luiz Araújo da Fonseca, atualmente com 56 anos e também professor da UFRJ.


Para André, o documento representa a conclusão simbólica de uma trajetória acadêmica interrompida pela violência do Estado.


“Essa identidade como estudante de Economia era muito forte para ele. O diploma encerra um ciclo, é como se ele estivesse atingindo aquele objetivo lá do passado. De todas as homenagens que ele já tinha recebido, essa para mim é a que tem mais peso”, afirmou.


O filho ainda revelou que pretende colocar o diploma do pai ao lado do próprio, na parede.


“Vou botar o diploma dele junto com o meu”, disse.


Memória como compromisso com a democracia


A cerimônia ocorreu no Salão Nobre do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e foi marcada por discursos em defesa da preservação da memória do período de repressão.


O reitor da universidade, Roberto de Andrade Medronho, afirmou que a iniciativa representa um compromisso institucional com a memória, a verdade e a justiça. Segundo ele, lembrar o passado é fundamental para impedir que experiências autoritárias sejam repetidas.


A solenidade também contou com a participação do jornalista Franklin Martins, que presidia o Diretório Central dos Estudantes da UFRJ em 1968. Ele ressaltou a atuação de estudantes e professores que enfrentaram a repressão mesmo diante de invasões de universidades, agressões, tiros e ataques de forças de segurança.


Para Franklin, o resgate dessas histórias pode contribuir para as lutas democráticas e sociais do presente.


A coordenadora-geral do DCE Mário Prata, Malu Cerqueira, destacou que a diplomação representa tanto uma reparação às famílias quanto uma manifestação da universidade sobre a importância de preservar a memória daqueles que foram perseguidos pelo regime.


Homenagens começaram com Stuart Angel


A cerimônia desta quarta-feira deu continuidade a uma iniciativa iniciada em julho, quando a UFRJ concedeu diploma póstumo ao estudante de Economia Stuart Angel Jones, torturado e assassinado em 1971.


O documento foi entregue pelo reitor à irmã de Stuart, a jornalista Hildegard Angel.


Os nomes reconhecidos pela universidade foram levantados pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ, com base em documentos e relatórios oficiais relacionados às vítimas da ditadura.


Os 23 estudantes diplomados


Receberam diplomas póstumos nesta quarta-feira:

• Adriano Fonseca Fernandes Filho

• Ana Maria Nacinovic

• Antônio de Pádua Costa

• Antônio Teodoro de Castro

• Antônio Sérgio de Matos

• Arildo Airton Valadão

• Áurea Eliza Pereira Valadão

• Ciro Flávio Salazar e Oliveira

• Fernando Augusto da Fonseca

• Flávio Carvalho Molina

• Frederico Eduardo Mayr

• Guilherme Gomes Lund

• Hélio Luiz Navarro

• Jana Moroni Barroso

• José Roberto Spigner

• Kleber Lemos da Silva

• Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides

• Maria Célia Corrêa

• Maria Regina Lobo Leite Figueiredo

• Mário de Souza Prata

• Paulo Costa Ribeiro Bastos

• Solange Lourenço Gomes

• Sonia Maria Lopes de Moraes


Também foram homenageados dois integrantes da comunidade acadêmica que já haviam concluído a formação ou atuavam profissionalmente na instituição quando foram mortos: Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, e Raul Amaro Nin, pesquisador da Faculdade de Engenharia.


A iniciativa da UFRJ recupera trajetórias que foram interrompidas pela repressão e devolve às famílias, ainda que simbolicamente, um reconhecimento acadêmico que a violência política impediu que esses estudantes recebessem em vida.

Com informações Agência Brasil

Foto Divulgação


 
 
 

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