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Violência contra mulheres leva 900 vítimas por dia ao sistema de saúde no Brasil

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 22 de abr.
  • 3 min de leitura

A cada dia de 2025, cerca de 900 meninas e mulheres buscaram atendimento em unidades de saúde no Brasil após sofrerem algum tipo de violência. Os dados, registrados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação, somam aproximadamente 330 mil შემთხვევos no período e expõem um retrato preocupante que muitas vezes não aparece nas estatísticas policiais.


As informações foram obtidas junto ao Ministério da Saúde e revelam um cenário amplo de violência interpessoal — caracterizada pelo uso intencional de força ou poder — identificado diretamente nos atendimentos médicos. Embora a notificação inclua diferentes grupos sociais, as mulheres seguem como principais vítimas.


Perfil das vítimas revela padrão persistente


Ao longo da última década, entre 2015 e 2025, as mulheres representaram 71% dos mais de 2,3 milhões de atendimentos relacionados à violência. O perfil predominante aponta para vítimas entre 20 e 49 anos, majoritariamente negras — pardas e pretas — com menor nível de escolaridade.


Na maioria dos casos, a agressão ocorre dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-parceiros, reforçando o caráter doméstico da violência.


Outro dado que chama atenção é a repetição dos episódios: 53% das vítimas já haviam procurado atendimento anteriormente pelo mesmo motivo. O número evidencia um ciclo contínuo de violência, que muitas vezes não é interrompido.


Segundo a pesquisadora Camila Alves, da Fiocruz, apenas uma parcela das vítimas chega ao sistema de saúde. Levantamentos indicam que cerca de 34% das mulheres em situação de violência buscam algum tipo de atendimento, o que sugere subnotificação significativa.


Violência pode evoluir para casos mais graves


Especialistas alertam que a violência raramente ocorre de forma isolada. Para a professora Deborah Carvalho Malta, da Universidade Federal de Minas Gerais, há uma progressão nos episódios.


Casos que começam com agressões psicológicas podem evoluir para violência física e, em situações mais graves, resultar em morte. Estudos em andamento indicam que parte das mulheres com histórico recorrente de violência acaba tendo desfechos fatais.


Esse padrão também aparece nos dados de feminicídio no país, que atingem principalmente mulheres adultas, negras e vítimas de parceiros dentro do ambiente doméstico.


Sistema de saúde como porta de entrada


Há cerca de 25 anos, o Ministério da Saúde passou a tratar a violência como questão de saúde pública. Desde então, além do atendimento clínico, o sistema atua na identificação, registro e encaminhamento das vítimas.


Quando um caso é identificado, a notificação ativa uma rede de apoio que pode incluir assistência social, orientação jurídica e encaminhamento para serviços especializados. No entanto, no caso de mulheres adultas, a comunicação com a polícia depende da decisão da própria vítima.


Esse cuidado busca evitar riscos adicionais, já que a denúncia sem consentimento pode agravar situações de vulnerabilidade.


O ambiente médico também permite identificar formas de violência menos visíveis, como abusos psicológicos e sexuais. A médica Lia Cruz Vaz da Costa Damásio, ligada à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, destaca que sintomas clínicos recorrentes podem indicar histórico de violência, como dores crônicas e disfunções relacionadas à saúde íntima.


Estrutura ainda é limitada


Apesar dos avanços, o acesso ao atendimento especializado ainda enfrenta obstáculos. Atualmente, cerca de 40 hospitais públicos no país estão habilitados a oferecer atendimento completo a vítimas de violência sexual.


A limitação da rede dificulta o acesso integral aos serviços necessários, especialmente em regiões mais afastadas. Muitas mulheres precisam percorrer longas distâncias ou não conseguem encontrar unidades preparadas para oferecer todo o suporte.


Impactos vão além da agressão imediata


Os efeitos da violência não se restringem ao momento do abuso. Especialistas apontam consequências de longo prazo, tanto físicas quanto psicológicas, que podem acompanhar as vítimas por toda a vida.


Um estudo publicado pela revista The Lancet em 2025 indica que a violência por parceiro íntimo está entre os principais fatores de risco para morte precoce e incapacidade em mulheres de 15 a 49 anos.


No Brasil, esse tipo de violência também figura entre as principais causas de perda de anos de vida saudável.


Um desafio estrutural


Para pesquisadores, o enfrentamento da violência contra a mulher exige medidas que ultrapassem o campo da saúde. Fatores como desigualdade social, baixa escolaridade e padrões culturais contribuem para a manutenção desse cenário.


A avaliação de especialistas é de que políticas públicas voltadas à educação, redução das desigualdades e proteção social são fundamentais para romper o ciclo de violência — um problema que segue enraizado e desafia diferentes áreas da sociedade brasileira.



 
 
 

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