Anistia aos golpistas do 8 de janeiro ameaça a democracia e a justiça no Brasil
- Marcus Modesto
- 16 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
A proposta de anistiar os envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 levanta sérias preocupações entre especialistas em direito e defensores do Estado Democrático de Direito. Convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, uma manifestação realizada neste domingo (16), no Rio de Janeiro, visa pressionar o Congresso Nacional para aprovar projetos de lei que extinguem a punição dos responsáveis pelas invasões e depredações das sedes dos três poderes, em Brasília.
Ameaça ao Estado Democrático de Direito
Juristas alertam que conceder anistia aos responsáveis por crimes contra a democracia é um precedente perigoso. Para Gustavo Sampaio, professor de Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF), a medida enfraquece o sistema democrático e abre caminho para novos atentados ao Estado de Direito.
“Com democracia não se brinca. Esses crimes foram comprovados com farta documentação, e perdoar os responsáveis envia uma mensagem perigosa de que ações golpistas podem se repetir sem consequências”, afirma o professor.
A professora de Direito Penal da Fundação Getulio Vargas (FGV), Raquel Scalcon, reforça que a gravidade dos crimes não pode ser ignorada. Segundo ela, a anistia aos envolvidos equivaleria a validar ataques contra as instituições democráticas.
“Estamos falando de crimes que, em essência, buscam destruir o sistema constitucional. Anistiar esses atos significa deslegitimar todo o esforço histórico de consolidação da democracia no Brasil”, explica Scalcon.
Um golpe na democracia
Para Vitor Schirato, professor de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a proposta de anistia representa um golpe direto na democracia brasileira. Ele critica a tentativa de parlamentares em absolver os responsáveis por um dos episódios mais violentos da história política recente do país.
“É um absurdo imaginar que parlamentares eleitos democraticamente possam querer isentar aqueles que tentaram destruir o próprio Estado Democrático de Direito. Isso enfraquece as instituições e incentiva novos ataques no futuro”, afirma Schirato.
A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) também se posicionou firmemente contra qualquer tentativa de anistia. Em nota oficial divulgada em fevereiro, a entidade classificou a proposta como um desrespeito aos que lutaram pela democracia no Brasil.
“Não admitiremos anistia! Nosso país precisa caminhar com Memória, Verdade e Justiça”, destaca o comunicado.
Os crimes do 8 de janeiro
Os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 foram um ataque sem precedentes ao coração da democracia brasileira. Manifestantes, acampados em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF).
A violência causou destruição de patrimônios históricos, incluindo móveis, obras de arte e equipamentos. As cenas de vandalismo, transmitidas ao vivo, chocaram o país e a comunidade internacional.
Mais de 1,4 mil pessoas foram presas e, até dezembro de 2024, 370 já haviam sido condenadas por crimes como golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e dano qualificado. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) afirmam que os atos foram parte de uma tentativa articulada de golpe de Estado com a participação direta do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados.
Anistia: um retrocesso inaceitável
Atualmente, tramitam no Congresso Nacional projetos que buscam conceder anistia aos envolvidos. Na Câmara dos Deputados, o PL 2.858/2022, de autoria do ex-deputado major Vitor Hugo (PL-GO), propõe o perdão a todos os crimes relacionados às manifestações de 2022, incluindo os atos de 8 de janeiro.
No Senado, há propostas semelhantes, como o PL 5.064/2023, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que busca perdoar os crimes de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Os defensores da anistia alegam perseguição política, mas especialistas afirmam que essa narrativa tenta desviar o foco da gravidade dos crimes cometidos. Para os juristas, perdoar os responsáveis enfraquece a resposta do Estado contra tentativas de ruptura institucional e mina a confiança nas instituições democráticas.
A luta por Justiça e Memória
A história brasileira já vivenciou as consequências da impunidade. Durante a ditadura militar (1964-1985), a Lei da Anistia de 1979 perdoou torturadores e violadores de direitos humanos, o que impediu a responsabilização de muitos agentes do Estado. Anistiar os responsáveis pelos ataques de 8 de janeiro seguiria o mesmo caminho, abrindo brechas para novos atentados contra a democracia.
Em um momento em que as instituições brasileiras tentam consolidar o respeito ao Estado de Direito, conceder anistia aos envolvidos no golpe representaria um grave retrocesso. A sociedade civil, as entidades jurídicas e as organizações de direitos humanos exigem que os responsáveis sejam julgados e punidos de acordo com a lei.
A memória dos ataques de 8 de janeiro não pode ser apagada — e o Brasil não pode se permitir repetir os erros do passado. Justiça plena e responsabilidade são fundamentais para garantir que a democracia prevaleça e que atos de violência contra as instituições jamais sejam tolerados.
Foto Agência Brasil




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