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Barra Mansa arrecada mais de R$ 1 bilhão, mas população enfrenta transporte precário, crise na educação e problemas históricos nos serviços públicos

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
há 1 hora
9 min de leitura

Marcus Modesto


Raio-X do município revela o contraste entre o volume de recursos movimentados pela Prefeitura e as dificuldades enfrentadas diariamente pelos moradores. Ônibus em condições preocupantes, saneamento deficiente, infraestrutura urbana, saúde e educação estão entre os principais desafios da cidade.


Barra Mansa tem uma população estimada em 181.675 habitantes e movimenta um orçamento bilionário. Em 2025, segundo dados do IBGE, o município registrou mais de R$ 1,077 bilhão em receitas brutas realizadas. No mesmo período, as despesas brutas empenhadas chegaram a aproximadamente R$ 1,016 bilhão.


Os números mostram o tamanho da estrutura financeira da administração municipal, mas também levantam uma questão que precisa estar no centro do debate público: por que tantos moradores continuam enfrentando problemas básicos para conseguir atendimento nos serviços públicos, circular pela cidade, estudar e até mesmo chegar ao trabalho?


O raio-X de Barra Mansa aponta um conjunto de dificuldades que não se resume a uma única área. O transporte coletivo está entre as reclamações mais frequentes, a infraestrutura urbana apresenta deficiências, o saneamento ainda convive com problemas importantes e a educação municipal atravessa um conflito com os profissionais da rede. Na saúde, os desafios de atendimento e acesso também precisam ser acompanhados com transparência.


Não se trata apenas de discutir quanto a Prefeitura arrecada, mas de avaliar o retorno que esse dinheiro proporciona à população.


Transporte público: ônibus quebrando e passageiros expostos a riscos


Um dos problemas mais preocupantes de Barra Mansa está no transporte coletivo. Para milhares de moradores, depender de ônibus significa enfrentar atrasos, intervalos longos, dificuldades de deslocamento e, em determinados casos, veículos que apresentam problemas mecânicos e estruturais.


Os episódios registrados nos últimos dias aumentaram a preocupação com as condições da frota da Viação Triecon.


Na noite de terça-feira, 3 de novembro, um ônibus da empresa perdeu o eixo traseiro na entrada do bairro Vila Elmira, nas proximidades do Barbará. O episódio provocou questionamentos sobre a manutenção dos veículos e os procedimentos de fiscalização do transporte municipal.


Dois dias depois, na quinta-feira, 5 de novembro, outra ocorrência chamou a atenção: uma passageira caiu dentro de um ônibus da mesma empresa. Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram um dos bancos aparentemente deslocado ou danificado. A relação exata entre o estado do assento e a queda precisa ser esclarecida pela empresa, assim como as circunstâncias do acidente e a existência de eventuais ferimentos.


Os dois episódios, em um intervalo de apenas dois dias, colocam em evidência uma questão fundamental: em que condições os ônibus estão circulando e quem está fiscalizando a segurança dos passageiros?


As reclamações não começaram agora. Em julho de 2026, usuários já relatavam cheiro de queimado, dificuldades na troca de marchas, remendos no teto, sinal de parada sem funcionamento, bancos quebrados, vidros danificados e atrasos. Passageiros também reclamaram de longos períodos de espera e da falta de coletivos nos fins de semana.


Na ocasião, a Triecon informou que o ônibus de prefixo 208 apresentou uma falha em uma válvula do sistema pneumático e afirmou que não havia risco de incêndio ou à segurança. A empresa também declarou realizar manutenções preventivas e corretivas e inspeções diárias nos veículos. Sobre os horários, informou que a operação contava com 926 viagens programadas diariamente e atribuiu parte dos atrasos a fatores externos.


Entretanto, as ocorrências recentes voltam a colocar a qualidade do serviço sob questionamento.


O problema não se limita à conservação dos veículos. Moradores também reclamam da demora entre as viagens, da oferta insuficiente em determinados bairros e das dificuldades para conseguir transporte em horários de menor movimento.


Em uma cidade onde trabalhadores, estudantes, idosos e pessoas com deficiência dependem do transporte coletivo, ônibus quebrando, bancos danificados e longas esperas não podem ser tratados como inconvenientes comuns.


A Prefeitura, responsável pela fiscalização do serviço municipal, precisa apresentar informações sobre as vistorias realizadas, as condições da frota, as notificações aplicadas às empresas e as providências adotadas diante das ocorrências. A Câmara Municipal também tem o dever de acompanhar e fiscalizar a prestação desse serviço.


O passageiro não pode ficar sozinho diante de um sistema que deveria garantir segurança, pontualidade e dignidade.


Saneamento: água chega à maioria, mas o esgoto continua sendo um problema


Os dados do Instituto Água e Saneamento, com base no SINISA 2024, mostram um cenário contraditório.


O abastecimento de água alcança aproximadamente 97,4% da população, índice superior à média estadual, de 92%. O atendimento com coleta de esgoto chega a 80,1%, também acima da média do Rio de Janeiro, de 61,5%.


Mas o indicador mais preocupante aparece quando se observa o tratamento do esgoto.


Apesar de o município registrar coleta de aproximadamente 98,3% do esgoto gerado, apenas 2,2% do volume é tratado, segundo os dados apresentados pelo levantamento. Isso significa que a coleta, por si só, não representa uma solução adequada para o problema ambiental e sanitário.


Outro indicador que chama atenção são as perdas de água na distribuição: 46,7%, enquanto a média estadual é de 30,3%.


Na prática, quase metade da água distribuída é perdida antes de chegar ao consumidor final, segundo esse indicador.


A infraestrutura urbana também apresenta uma deficiência importante: somente 32,7% das vias públicas da área urbana contam com pavimentação e meio-fio, percentual muito inferior à média estadual, de 69,6%.


São números que ajudam a explicar por que saneamento, drenagem, pavimentação e manutenção urbana precisam estar entre as prioridades do município.


Finanças públicas: arrecadação bilionária exige transparência


A receita bruta realizada por Barra Mansa em 2025 ultrapassou R$ 1,077 bilhão, conforme os dados do IBGE. As despesas brutas empenhadas ficaram próximas de R$ 1,016 bilhão.


É importante esclarecer que receita realizada não significa dinheiro livre em caixa. Da mesma forma, despesa empenhada não é necessariamente despesa já paga. Os números precisam ser analisados junto com os dados de arrecadação, pagamentos, restos a pagar, dívidas e obrigações financeiras.


Mesmo com essa ressalva, o volume de recursos movimentado exige uma discussão pública sobre planejamento, prioridades e qualidade dos serviços.


A população tem o direito de saber quanto é destinado a cada área, quais contratos consomem os recursos municipais, quais obras estão em andamento e quais resultados foram efetivamente entregues.


Outro ponto que merece atenção é a situação previdenciária. A Lei Municipal nº 6.140, de março de 2026, autorizou o parcelamento em 60 prestações de débitos residuais de contribuições patronais referentes a setembro, outubro, novembro e dezembro de 2025, além do décimo terceiro salário daquele ano.


A legislação não autoriza incluir nesse parcelamento as contribuições descontadas dos servidores ativos, aposentados e pensionistas. O fato, entretanto, reforça a necessidade de transparência sobre o tamanho da obrigação previdenciária, os valores já pagos e o saldo ainda existente.


A discussão financeira não pode ficar restrita a discursos sobre arrecadação. É necessário apresentar a situação real das contas e explicar como os recursos estão sendo aplicados.


Educação: conflito com os professores e estado de greve


A educação municipal também entrou no centro de uma crise envolvendo a Prefeitura e os profissionais da rede.


O conflito começou após a aprovação de uma proposta encaminhada pelo prefeito Luiz Furlani à Câmara Municipal, alterando regras relacionadas ao pagamento dos adicionais dos profissionais da educação.


A principal contestação dos professores está na mudança do adicional de regência. Antes, o percentual era estabelecido em 41%. Com a nova regra, esse índice passou a ser tratado como um limite máximo, com previsão de pagamento de até 41%, conforme definição do Executivo.


O sindicato da categoria questiona a alteração por entender que ela abre a possibilidade de redução de um direito remuneratório que antes tinha percentual definido.


A mobilização dos profissionais levou à paralisação e a uma série de manifestações. Em assembleia realizada em 5 de novembro, a categoria decidiu encerrar o movimento de meia paralisação, com retorno às atividades a partir do dia 6, mas manteve o estado de greve e marcou nova assembleia para 10 de novembro.


Portanto, o conflito não está encerrado. Os professores continuam mobilizados e cobram garantias sobre seus direitos e uma solução para o impasse.


A situação mostra que a crise na educação não se resume a indicadores de aprendizagem ou à estrutura das escolas. Também envolve a relação entre o governo municipal e os profissionais responsáveis pelo funcionamento da rede pública.


O município precisa buscar uma solução que respeite os direitos dos trabalhadores e preserve a qualidade do ensino oferecido aos estudantes.


Saúde: orçamento expressivo e necessidade de melhorar o atendimento


A saúde é outra área que precisa estar no centro da avaliação sobre os serviços públicos.


Dados orçamentários de 2025 apontam despesas liquidadas de aproximadamente R$ 260 milhões na função saúde, conforme levantamento baseado em informações do SICONFI.


O valor demonstra a dimensão dos recursos destinados à área, mas não é suficiente, isoladamente, para medir a qualidade do atendimento.


O que interessa diretamente à população é conseguir uma consulta, realizar exames, encontrar medicamentos, ter atendimento nas unidades de saúde e obter encaminhamento quando necessário.


Para avaliar a situação com precisão, a Prefeitura precisa divulgar indicadores atualizados sobre filas, tempo de espera, disponibilidade de medicamentos, consultas especializadas, exames represados e funcionamento das unidades.


Não basta informar quanto foi gasto. É preciso mostrar o que esse investimento produziu na vida de quem depende do SUS.


Infraestrutura urbana: pavimentação, drenagem e manutenção


A infraestrutura também representa um desafio para Barra Mansa.


O percentual de vias urbanas pavimentadas e com meio-fio, de apenas 32,7%, segundo o levantamento do Instituto Água e Saneamento, revela uma deficiência que atinge diretamente a mobilidade e a qualidade de vida dos moradores.


Em diferentes bairros, a população depende de serviços permanentes de conservação das ruas, manutenção de redes de drenagem, limpeza de bueiros, iluminação pública e recuperação de pavimentos.


A drenagem merece atenção especial. O município possui mapeamento integral das áreas de risco e sistema de alerta hidrológico, mas ainda não conta com Plano Diretor de Drenagem, segundo os dados consultados.


Isso mostra que não basta agir depois de alagamentos e transtornos. É necessário planejamento para reduzir riscos, melhorar o escoamento da água e preparar a cidade para períodos de chuvas intensas.


Segurança pública: um problema que exige dados e ações permanentes


A segurança também integra as preocupações dos moradores. A violência e a sensação de insegurança precisam ser enfrentadas com políticas permanentes, integração entre os órgãos responsáveis e atuação nos bairros.


É importante lembrar que a segurança pública envolve responsabilidades compartilhadas entre município e Estado. Cabe ao governo municipal contribuir com políticas de prevenção, iluminação, ordenamento urbano, ações sociais e integração com as forças de segurança.


Para dimensionar corretamente o problema, é necessário acompanhar os indicadores oficiais de criminalidade de Barra Mansa, incluindo homicídios, roubos e demais ocorrências, sem confundir números regionais com dados específicos do município.


A população precisa de respostas concretas e de políticas que não apareçam apenas depois de episódios de violência.


Emprego e desenvolvimento: oportunidades precisam chegar à população


Barra Mansa tem localização estratégica no Sul Fluminense e potencial econômico ligado ao comércio, aos serviços, à indústria e à logística.


A realização de mutirões de emprego, como a ação promovida pela Prefeitura em parceria com a CBSI em 6 de novembro, com mais de mil vagas anunciadas, representa uma oportunidade para trabalhadores que procuram colocação no mercado.


Mas o desenvolvimento econômico precisa ir além de ações pontuais. É necessário atrair investimentos, fortalecer o comércio local, qualificar trabalhadores, apoiar pequenos empreendedores e criar condições para que novas empresas se instalem no município.


A geração de empregos deve ser acompanhada de políticas de formação profissional e de oportunidades para os moradores dos bairros mais afastados.


O problema não está em uma única área


O conjunto de indicadores mostra que Barra Mansa enfrenta desafios que atravessam diferentes setores da administração pública.


O transporte coletivo apresenta episódios recentes de falhas mecânicas e problemas estruturais relatados por passageiros. O saneamento tem baixa proporção de tratamento do esgoto e perdas elevadas na distribuição de água. A infraestrutura urbana apresenta um percentual reduzido de vias pavimentadas. A educação vive um conflito com os profissionais da rede, que permanecem em estado de greve. A saúde precisa demonstrar, com indicadores, a efetividade dos recursos aplicados.


Esses problemas não começaram necessariamente na atual administração e não podem ser atribuídos automaticamente a um único governo. Muitos são históricos e exigem planejamento, continuidade administrativa e investimentos.


Mas isso não elimina a responsabilidade de quem está no comando da Prefeitura hoje. Cabe à gestão municipal apresentar soluções, fiscalizar contratos, estabelecer prioridades e prestar contas à população.


O que Barra Mansa precisa enfrentar


O raio-X aponta algumas prioridades que não podem continuar sendo adiadas:


  • Transporte público: fiscalização permanente, inspeções técnicas, manutenção da frota, cumprimento dos horários e transparência sobre as condições dos ônibus.

  • Saneamento: ampliação do tratamento de esgoto e redução das perdas de água.

  • Educação: diálogo com os profissionais, solução para o conflito remuneratório e valorização dos trabalhadores.

  • Saúde: transparência sobre filas, exames, consultas, medicamentos e resultados dos investimentos.

  • Infraestrutura: pavimentação, drenagem, conservação das ruas e prevenção de alagamentos.

  • Finanças: divulgação clara da arrecadação, das despesas, das dívidas e dos pagamentos realizados.

  • Segurança: políticas preventivas e acompanhamento dos indicadores oficiais de criminalidade.

  • Desenvolvimento: atração de investimentos, qualificação profissional e geração de empregos.


Uma cidade que precisa transformar arrecadação em qualidade de vida


Barra Mansa não é uma cidade sem recursos ou sem potencial. É um município com população expressiva, atividade econômica relevante e receitas públicas que ultrapassaram R$ 1 bilhão em 2025.


O desafio é transformar essa capacidade financeira em serviços públicos que funcionem.


Não é aceitável que o trabalhador tenha de enfrentar longas esperas por um ônibus e ainda correr o risco de viajar em um veículo que apresenta problemas mecânicos ou estruturais. Não é razoável que a população conviva com deficiências no saneamento, enquanto os profissionais da educação enfrentam um conflito que mantém a categoria em estado de greve.


A discussão sobre o futuro de Barra Mansa precisa sair do campo da propaganda política e entrar no terreno dos resultados.


A população não vive de números apresentados em discursos, fotografias de obras ou publicações nas redes sociais. Vive da qualidade do ônibus que pega, do atendimento que recebe, da escola onde os filhos estudam, da rua onde mora e da segurança que encontra no bairro.


O município precisa responder a uma pergunta simples: com mais de R$ 1 bilhão em receitas brutas realizadas em um ano, quais mudanças concretas estão chegando à vida dos moradores?


Esse é o verdadeiro raio-X de Barra Mansa: uma cidade com capacidade econômica, mas que ainda precisa superar problemas básicos que afetam diretamente a dignidade e a qualidade de vida de sua população.

Foto Arquivo


 
 
 

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