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Nikolas Ferreira: quando o preconceito vira palanque e a intolerância ganha mandato

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
há 17 minutos
4 min de leitura

Marcus Modesto


Há políticos que entram na vida pública para apresentar projetos, defender direitos, melhorar a vida da população e contribuir para a democracia. E há aqueles que parecem ter encontrado no conflito, na provocação e na disseminação do preconceito o principal combustível de suas carreiras. Nikolas Ferreira, deputado federal do PL de Minas Gerais, é um personagem que merece uma reflexão profunda sobre o tipo de política que representa.


Jovem, com milhões de seguidores e uma capacidade enorme de mobilizar as redes sociais, Nikolas construiu sua trajetória política apostando na comunicação agressiva, no discurso conservador radical e na polarização. Foi vereador em Belo Horizonte e chegou à Câmara dos Deputados em 2023 com mais de 1,49 milhão de votos, tornando-se o deputado federal mais votado do país naquela eleição.


Mas popularidade eleitoral não é sinônimo de grandeza política. Ter milhões de seguidores não significa ter compromisso com a democracia, respeito às diferenças ou responsabilidade com o cargo que ocupa.


E é justamente aí que começa o problema.


Nikolas não ficou conhecido por uma grande contribuição legislativa, por uma proposta transformadora para a educação ou por uma luta incansável contra a desigualdade social. Sua projeção nacional está fortemente associada a polêmicas, ataques a adversários, provocações e declarações contra grupos historicamente discriminados.


O histórico envolvendo a população LGBTQIA+ é particularmente grave.

Em 2020, quando ainda era vereador, referiu-se à então vereadora Duda Salabert no masculino, negando sua identidade de gênero. O caso chegou à Justiça. Em junho de 2025, o Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação que determinou o pagamento de R$ 30 mil de indenização à parlamentar por danos morais.


Em março de 2023, no Dia Internacional da Mulher, ocupou a tribuna da Câmara dos Deputados usando uma peruca loira para ironizar mulheres trans. Disse que as mulheres estariam perdendo espaço para homens que se identificam como mulheres. Transformou uma data de luta feminina em palco para uma provocação contra uma parcela da população que já enfrenta violência, exclusão e discriminação.


Como se não bastasse, em junho daquele ano, durante o mês do Orgulho LGBTQIA+, publicou que a homossexualidade não seria doença, mas pecado, defendendo arrependimento como caminho para abandonar essa condição.


Em outubro de 2023, durante participação em um podcast, foi ainda mais longe. Comparou relacionamentos homoafetivos a comportamentos como alcoolismo, mentira e gula e afirmou que pessoas homossexuais poderiam estar sendo usadas pelo diabo. As declarações motivaram uma representação à Procuradoria-Geral da República por homofobia.


É preciso perguntar: que tipo de representação política acredita que pode tratar a orientação sexual de milhões de brasileiros como pecado, ilusão ou influência demoníaca?


A liberdade religiosa é um direito constitucional. Qualquer pessoa pode professar sua fé. Mas religião não pode servir de autorização para humilhar, desqualificar ou retirar a dignidade de quem pensa, ama e vive de maneira diferente.


E existe uma diferença enorme entre defender uma convicção religiosa e utilizar um mandato parlamentar para transformar cidadãos em alvos de preconceito.


O episódio envolvendo uma estudante trans de apenas 14 anos também merece atenção. Nikolas divulgou um vídeo sobre a presença da adolescente no banheiro feminino de uma escola de Belo Horizonte. O Ministério Público de Minas Gerais apresentou denúncia, posteriormente recebida pela Justiça, por acusações relacionadas à discriminação contra a estudante. É um episódio que revela a

dimensão dos danos que a exposição pública pode causar, especialmente quando envolve uma adolescente.


O problema, portanto, não está apenas nas palavras. Está no uso da força política, da visibilidade e da influência digital para alimentar uma cultura de intolerância.

Nikolas parece compreender muito bem o funcionamento das redes sociais: provoca, grava, publica, mobiliza seus seguidores e transforma a repercussão em capital político. Quanto maior a indignação, maior a audiência. Quanto maior a polêmica, mais espaço ocupa no debate público.


É uma política que vive da confusão e prospera na divisão.


E enquanto isso, o Brasil enfrenta problemas reais: milhões de pessoas lutam contra a pobreza, trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, escolas precisam de investimentos, hospitais carecem de estrutura e famílias esperam por oportunidades. Mas o debate público frequentemente é sequestrado por guerras culturais fabricadas para manter determinados políticos permanentemente no centro das atenções.


O mandato parlamentar deveria ser instrumento de representação de toda a sociedade, inclusive daqueles que não votaram no deputado, daqueles que discordam dele e daqueles que pertencem a minorias historicamente perseguidas.

Nikolas tem todo o direito de ser conservador, religioso e de defender suas posições políticas. O que não pode é confundir liberdade de expressão com licença para discriminar. Um mandato não concede imunidade moral, nem transforma preconceito em virtude.


O Brasil não precisa de parlamentares que façam da humilhação uma estratégia de comunicação. Precisa de representantes que entendam que democracia não significa apenas vencer eleições, mas respeitar os direitos de todos.

E aqui está a contradição de um político que se apresenta como defensor da família, dos valores cristãos e da moralidade: de que adianta falar tanto em amor, fé e família quando o discurso público é marcado pela desqualificação de pessoas simplesmente por serem quem são?


A fé deveria ensinar solidariedade, compaixão e respeito. Não deveria ser transformada em arma política contra quem é diferente.


Nikolas Ferreira pode continuar acumulando seguidores, visualizações e aplausos de quem se identifica com seu discurso. Mas precisa entender que milhões de brasileiros não aceitam que seus direitos sejam tratados como piada, pecado ou ameaça à sociedade.


O Brasil não precisa de mais um político especialista em fabricar inimigos. Precisa de representantes capazes de defender direitos, enfrentar desigualdades e respeitar a dignidade humana.


Porque preconceito não é coragem. Intolerância não é liderança. E fazer barulho nas redes sociais não é fazer história.


Um mandato parlamentar deveria servir para ampliar direitos, não para diminuir a dignidade de quem já luta diariamente para ser respeitado.



 
 
 

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