Brasil diante do abismo: quando a política deixa de ser disputa e vira confronto
Marcus Modesto
A ascensão da extrema-direita e a possibilidade de uma nova Presidência de Flávio Bolsonaro colocam o país diante de um dos momentos mais tensos de sua história democrática recente
O resultado das urnas no primeiro turno de 2026 deveria servir como um alerta para todo o Brasil, independentemente de posição ideológica.
Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva chegam ao segundo turno separados por menos de dois pontos percentuais. Flávio terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. Mais de 110 milhões de votos foram concentrados nas duas candidaturas. A decisão final acontecerá em 25 de outubro.
O resultado não representa apenas uma disputa entre dois nomes. Ele revela a dimensão que a polarização política alcançou no Brasil.
E existe uma questão que não pode ser escondida debaixo do tapete: até onde uma sociedade dividida consegue levar suas diferenças sem transformar a política em conflito permanente?
O fantasma do confronto interno
Falar em guerra civil no Brasil seria irresponsável se apresentado como uma previsão. Não há base para afirmar que o país inevitavelmente caminhará para isso.
Mas existe, sim, um cenário de violência política crescente que merece atenção.
Um levantamento da Terra de Direitos e da Justiça Global identificou 354 episódios de violência política entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, uma ocorrência a cada 44 horas. Segundo o estudo, o período pré-eleitoral foi o mais violento da série histórica analisada.
Esse dado deveria preocupar direita, esquerda, centro e qualquer cidadão que considere a democracia importante.
Porque uma democracia não começa a morrer necessariamente quando as instituições são fechadas.
Ela também pode começar a se deteriorar quando o adversário político deixa de ser adversário e passa a ser tratado como inimigo.
Quando o eleitor do outro lado é chamado de traidor.
Quando a divergência vira motivo para ameaça.
Quando a política passa a ser encarada como uma guerra na qual qualquer método parece justificável para derrotar o adversário.
O bolsonarismo deixou de ser apenas uma força eleitoral passageira
O primeiro turno mostrou outra realidade que não pode ser ignorada.
O bolsonarismo continua representando uma força política de enorme dimensão no país. Flávio Bolsonaro herdou uma parcela expressiva do eleitorado associado ao pai e chegou ao segundo turno com mais de 56 milhões de votos.
Análises publicadas após a votação apontam que o fenômeno não pode mais ser tratado simplesmente como uma circunstância eleitoral ligada à figura de Jair Bolsonaro. Há pesquisadores que identificam a consolidação de um campo político próprio, associado à direita radical e alimentado também pelo antipetismo.
Isso significa que o fenômeno precisa ser compreendido — e não simplesmente ignorado.
Ao mesmo tempo, é importante separar uma coisa da outra: ser eleitor de direita, conservador ou crítico do PT não significa ser extremista.
O problema democrático começa quando posições políticas passam a justificar a violência, a ruptura institucional ou a eliminação do adversário do jogo político.
O passado recente não pode ser apagado
O Brasil ainda carrega as consequências dos acontecimentos posteriores à eleição de 2022.
A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, deixou uma marca profunda na democracia brasileira. O episódio resultou em centenas de condenações pelo Supremo Tribunal Federal. Relatórios internacionais também registraram as investigações e condenações relacionadas à tentativa de permanência no poder após a derrota eleitoral de 2022.
É impossível discutir o futuro político do país sem lembrar desse passado.
Mas também é necessário evitar outro erro: transformar milhões de eleitores em responsáveis coletivos pelos atos de uma parcela radicalizada.
A democracia exige responsabilização individual.
Quem comete crime deve responder por ele.
Quem vota em determinado candidato não pode ser automaticamente tratado como criminoso, golpista ou inimigo da sociedade.
O risco não está apenas em um lado
Uma análise séria também precisa reconhecer que a radicalização não pode ser utilizada como argumento para demonizar todo um campo político.
A esquerda possui milhões de eleitores legítimos.
A direita possui milhões de eleitores legítimos.
O centro também existe.
O que ameaça a democracia não é simplesmente a existência dessas diferenças.
O perigo está na transformação da diferença em ódio político.
O Brasil não precisa que todos pensem da mesma maneira.
Precisa que pessoas que pensam de maneira completamente diferente consigam continuar vivendo no mesmo país.
E se Flávio Bolsonaro vencer?
A possibilidade de Flávio Bolsonaro assumir a Presidência coloca novamente no centro do debate o relacionamento entre Executivo, Congresso, Judiciário, imprensa e demais instituições.
Uma eventual vitória de qualquer candidato precisa ser acompanhada pelo funcionamento normal das instituições democráticas.
Presidente não governa sozinho.
Existe Congresso.
Existe Judiciário.
Existem governos estaduais e municipais.
Existe imprensa.
Existem órgãos de controle.
Existem eleições.
E existe uma sociedade civil que tem o direito de cobrar o poder público.
É justamente por isso que a discussão não deveria ser reduzida à pergunta sobre quem vai ganhar.
A pergunta mais importante é: o que acontecerá com a democracia brasileira depois que a eleição terminar?
Quem não votou ainda terá uma responsabilidade
Milhões de brasileiros não participaram do primeiro turno. Para essas pessoas, o segundo turno representa uma nova oportunidade de participação eleitoral.
Os dois turnos são eleições independentes, e quem não votou no primeiro pode votar no segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular. A segunda votação ocorrerá em 25 de outubro.
Esse eleitor terá diante de si duas candidaturas e uma decisão que não deveria ser tomada por paixão, corrente de WhatsApp, vídeo manipulado ou pressão de grupo.
É preciso olhar propostas, histórico, declarações, alianças, compromissos e, principalmente, a relação de cada projeto político com as instituições democráticas.
Não votar é uma escolha. Votar também.
Mas, diante de uma eleição tão polarizada, a participação consciente do cidadão ganha importância ainda maior.
O Brasil não pode virar refém do ódio
O maior perigo talvez não seja a existência de uma direita forte ou de uma esquerda forte.
O perigo é um Brasil no qual metade da população passe a considerar a outra metade ilegítima.
Esse caminho é perigoso.
Um país dividido permanentemente entre “nós” e “eles” pode transformar qualquer eleição em uma batalha existencial.
E quando cada eleição passa a ser tratada como a última batalha possível, a democracia fica sob pressão.
Não é necessário prever uma guerra civil para reconhecer que a violência política já é um problema real. Os dados disponíveis mostram que ameaças, agressões e outros episódios de violência política cresceram a um nível preocupante no período pré-eleitoral.
O desafio brasileiro é justamente impedir que essa escalada avance.
A democracia precisa sobreviver ao resultado das urnas
Flávio Bolsonaro pode vencer ou Lula pode vencer. O resultado será decidido pelo eleitorado.
O que não pode acontecer é qualquer lado considerar que a vitória eleitoral lhe dá autorização para destruir as regras que permitem ao adversário existir politicamente.
O vencedor terá de governar também para quem não votou nele.
O derrotado terá de respeitar o resultado.
A oposição terá de existir.
A imprensa terá de fiscalizar.
O Congresso terá de cumprir seu papel.
O Judiciário terá de exercer suas competências dentro da Constituição.
E o cidadão terá de continuar cobrando.
Porque democracia não é apenas o ato de colocar um voto na urna.
Democracia é aceitar que o outro tem o direito de existir, discordar, criticar, disputar e tentar vencer novamente dentro das regras.
O Brasil já descobriu o preço de transformar a política em guerra.
Agora precisa decidir se vai continuar alimentando a divisão ou se será capaz de impedir que a disputa política ultrapasse a fronteira que separa a democracia do confronto permanente.
Foto IA




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