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Editorial | Barra Mansa acende as luzes de Natal enquanto a previdência municipal pede socorro

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
3h
4 min de leitura

Marcus Modesto


Barra Mansa parece viver uma inversão preocupante de prioridades. Enquanto o município enfrenta questionamentos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) sobre o equilíbrio das contas públicas e a situação da previdência municipal, a administração do prefeito Luiz Furlani prepara uma contratação de quase R$ 13 milhões para transformar a cidade em um grande cenário natalino. É muito dinheiro para uma festa que, em poucas semanas, será desmontada, enquanto os problemas financeiros da Prefeitura continuarão esperando solução.


Não se trata de ser contra o Natal, contra a cultura ou contra o comércio. A cidade tem direito à celebração, ao lazer e à movimentação econômica. O que precisa ser questionado é a dimensão do gasto diante da realidade financeira do município. Afinal, como justificar uma contratação de R$ 12,889 milhões para a decoração natalina quando existem pendências tão sérias envolvendo as obrigações previdenciárias?


O TCE-RJ apontou irregularidades na análise das contas de governo de Barra Mansa referentes a 2025, recomendando parecer prévio contrário à aprovação. Entre os problemas identificados estão questões relacionadas ao equilíbrio financeiro e ao cumprimento de obrigações com o Regime Próprio de Previdência Social. Não estamos falando de detalhes administrativos sem importância. Estamos falando do futuro de aposentados e pensionistas, de servidores que trabalharam durante décadas e que dependem da responsabilidade do poder público para receber seus benefícios.


A situação merece ainda mais atenção diante dos débitos patronais que precisaram ser objeto de parcelamento, em 60 prestações, envolvendo contribuições de setembro a dezembro de 2025 e o décimo terceiro salário. Quando uma Prefeitura precisa renegociar obrigações previdenciárias, o assunto exige transparência, planejamento e explicações convincentes. Não se pode tratar a previdência municipal como uma conta secundária, muito menos como um problema que pode ser empurrado para os próximos governos.


É nesse cenário que aparece a pergunta inevitável: onde estão as prioridades do governo Luiz Furlani?


Uma árvore musical contratada por R$ 1,7 milhão pode até render fotografias, vídeos e aplausos durante a temporada natalina. Mas não paga aposentadoria, não reduz déficit previdenciário, não melhora o atendimento nos postos de saúde e não resolve os problemas das escolas municipais. A decoração será retirada, os equipamentos irão embora e a cidade voltará à sua rotina. As obrigações financeiras, entretanto, permanecerão.


O prefeito precisa explicar à população qual estudo de impacto financeiro fundamentou essa contratação, de onde sairão os recursos, quais são os benefícios econômicos efetivamente esperados e se a despesa compromete outras prioridades municipais. Não basta apresentar um Natal grandioso como conquista administrativa. Dinheiro público exige justificativa pública.


E a Câmara Municipal? Até quando os vereadores continuarão fazendo figuração diante dos problemas de Barra Mansa?


A omissão do Legislativo é uma questão que precisa ser colocada no centro desse debate. Os vereadores foram eleitos para representar a população e fiscalizar o prefeito, não para funcionar como uma plateia permanente do Palácio 17 de Julho. Onde estão os requerimentos cobrando explicações sobre a previdência? Onde estão as convocações dos responsáveis pelas finanças municipais? Onde estão as audiências públicas para discutir o futuro do Previbam? Quem está cobrando detalhadamente os quase R$ 13 milhões da decoração natalina?


É muito fácil aparecer em fotografias, participar de eventos, discursar em solenidades e divulgar nas redes sociais qualquer pequena realização da administração. Difícil, pelo visto, é enfrentar o Executivo, fazer perguntas incômodas e assumir o desgaste de fiscalizar quem está no poder. Mandato de vereador não é emprego de representação protocolar, nem cargo para cumprir agenda de festas e distribuir elogios ao prefeito.


A população precisa saber se esses parlamentares estão realmente acompanhando a situação financeira do município ou se pretendem continuar assistindo de braços cruzados enquanto decisões milionárias são tomadas. Não basta levantar a mão nas votações e depois desaparecer quando surgem problemas. A Câmara tem instrumentos legais para fiscalizar, convocar secretários, solicitar documentos, promover investigações e cobrar providências. Se não utiliza esses instrumentos diante de uma situação dessa gravidade, precisa explicar à sociedade qual é, afinal, o papel que está desempenhando.


Uma Câmara que não cobra explicações do prefeito acaba deixando a população sozinha diante das decisões do Executivo. E isso é particularmente grave quando estão em jogo recursos públicos, aposentadorias e o futuro financeiro da cidade.


Barra Mansa não precisa escolher entre Natal e responsabilidade fiscal. Precisa de planejamento para que a cidade possa celebrar sem negligenciar compromissos permanentes. O que não é aceitável é transmitir uma imagem de prosperidade nas ruas enquanto questões fundamentais das finanças públicas continuam sem respostas satisfatórias.


A administração municipal precisa compreender que governar não é produzir cenários para fotografias, disputar recordes de decoração ou transformar eventos em vitrines políticas. Governar é cuidar do dinheiro do contribuinte, garantir serviços públicos e respeitar quem dedicou a vida ao funcionalismo municipal. E aos vereadores cabe lembrar que fiscalizar não é uma opção: é uma obrigação do mandato que receberam nas urnas.


As luzes de Natal vão se apagar. A árvore será desmontada. A festa vai embora. Mas a conta previdenciária continuará sobre a mesa do prefeito e dos próximos governos.


Barra Mansa merece um Natal bonito, mas merece muito mais uma administração responsável e uma Câmara Municipal que tenha coragem de cumprir seu papel. Porque vereador não foi eleito para ser figurante de governo. Foi eleito para fiscalizar, questionar e defender os interesses da população. E é exatamente isso que a cidade precisa começar a cobrar.

Foto Arquivo


 
 
 

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