Editorial: O declínio do Carnaval de Rua em Barra Mansa
- Marcus Modesto
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por Marcus Modesto
Barra Mansa já foi sinônimo de alegria, criatividade popular e resistência cultural quando o assunto era Carnaval de rua. Durante décadas, a cidade foi referência na região, arrastando multidões, revelando talentos e transformando suas ruas em palco aberto para a cultura popular. Hoje, o cenário é outro — silencioso, esvaziado e sem perspectiva.
O município que já teve escolas de samba ativas, desfiles na avenida e uma programação que mobilizava bairros inteiros, atualmente não tem mais agremiações carnavalescas estruturadas. Não há desfile oficial. Não há avenida. Não há calendário permanente de fomento. O que restou foi a memória — e a resistência.
A resistência tem nome e história: o tradicional Bloco do Boi, fundado em 1946, que completou 80 anos de desfiles ininterruptos pelas ruas da cidade. Inspirado na tradição do Bumba Meu Boi, o bloco se tornou símbolo da cultura popular barramansense e atravessou gerações mantendo viva a essência do Carnaval de rua. É o último bastião de uma tradição que já foi muito maior.
O desaparecimento das escolas de samba e dos desfiles não é fruto do acaso. É resultado direto da ausência de política pública contínua para a cultura popular. Carnaval não se improvisa. Exige planejamento, formação de novos blocos, incentivo a oficinas de percussão, apoio a costureiras, carnavalescos, músicos e lideranças comunitárias. Sem investimento e organização, a tradição enfraquece.
Outras cidades da região conseguiram manter seus carnavais ativos com editais, chamamentos públicos e apoio logístico. Em Barra Mansa, o que se viu ao longo dos anos foi a descontinuidade. Cada governo tratou o Carnaval como evento pontual, não como política cultural estruturante. E cultura não sobrevive de improviso.
O impacto vai além da festa. O Carnaval movimenta a economia local, gera renda para ambulantes, artistas, comerciantes e fortalece o sentimento de pertencimento. Ao abandonar essa tradição, o município perde identidade e oportunidade de desenvolvimento cultural e econômico.
Barra Mansa precisa decidir se quer que o Carnaval seja apenas lembrança nostálgica ou patrimônio vivo. É urgente retomar um plano municipal de fomento ao Carnaval de rua, estimular a criação de novos blocos, resgatar as escolas de samba e reconstruir o desfile oficial.
A cidade que já foi referência não pode se contentar em ser apenas espectadora da própria história. O Bloco do Boi resiste. Mas uma tradição coletiva não pode depender de um único sobrevivente.
Foto M Moura
