Editorial: Quando o revanchismo atropela o bom senso
Marcus Modesto
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, de uma pauta-bomba que libera até R$ 30 bilhões do Fundo Social do pré-sal para o agronegócio com juros subsidiados não é apenas mais um capítulo da velha política do “toma lá, dá cá”. É, sobretudo, um retrato preocupante de como o revanchismo entre os Poderes pode custar caro — e quem paga essa conta, como sempre, é a sociedade.
Criado com o objetivo de financiar políticas públicas estruturantes em saúde, educação e habitação, o Fundo Social agora corre o risco de ser desvirtuado para atender interesses imediatistas de um setor que, convenhamos, já goza de privilégios fiscais e subsídios em abundância. Não se trata de negar o papel estratégico do agronegócio, mas sim de questionar a lógica perversa de sacrificar políticas sociais essenciais em nome de barganhas políticas.
O pano de fundo é claro: a medida foi empurrada goela abaixo do Executivo como resposta ao veto de Lula sobre o aumento do número de deputados e à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que desagradou o Congresso. Ou seja, em vez de construir soluções com diálogo e responsabilidade, deputados optaram por usar o Orçamento público como instrumento de retaliação institucional.
O líder do governo, José Guimarães, teve razão ao apontar a incoerência de parlamentares que cobram austeridade fiscal enquanto patrocinam esse tipo de farra. Mas sua crítica soa tímida frente à gravidade do episódio. A fragilidade da articulação política do Planalto também precisa ser escancarada: perdeu controle da base, perdeu o tempo de negociação e agora perde a narrativa.
Aos gritos, empurrões e com comemoração no plenário por parte da bancada ruralista, o que se viu foi uma Câmara agindo mais como palco de disputa do que como casa do povo. Não houve qualquer consideração sobre os impactos futuros dessa decisão. A dívida pública, o desmonte das políticas sociais e a credibilidade fiscal do país? Nada disso importa quando o jogo político vira acerto de contas.
O recado está dado: os acordos entre os Poderes estão ruindo, e a governabilidade, comprometida. O recesso parlamentar começa com uma bomba-relógio armada e a sensação de que Brasília, mais uma vez, virou as costas para o Brasil real. O que deveria ser pacto federativo virou guerra declarada. E, no meio disso tudo, a população assiste à implosão silenciosa do bom senso.




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