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Flávio Bolsonaro recusa explicar sua relação com miliciano condenado no caso Marielle

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
há 5 minutos
4 min de leitura

Reportagem da revista piauí revela que senador destinou quase R$ 200 mil em emenda parlamentar após pedido de Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo STF por envolvimento no esquema criminoso ligado ao assassinato de Marielle Franco


A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro ganhou um novo e grave elemento de questionamento. Reportagem publicada pela revista piauí revela que, em 2023, o senador destinou R$ 199.999,79 em recursos públicos para um projeto social na Taquara, no Rio de Janeiro, após uma solicitação feita por Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, apontado como integrante da organização criminosa ligada aos irmãos Brazão e condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no caso Marielle Franco.


O episódio não se resume à existência de uma emenda parlamentar. Segundo a piauí, mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram que Calixto mantinha contato direto com uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro. Em outubro de 2023, ele escreveu: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar.”


A assessora respondeu orientando o envio de uma solicitação formal. Poucos dias depois, segundo a reportagem, ela própria orientou Calixto a aproveitar uma cerimônia no Rio para reforçar pessoalmente o pedido com Flávio Bolsonaro e levar consigo o então deputado Chiquinho Brazão.


O dinheiro acabou destinado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), para um projeto esportivo. A entidade está localizada na Taquara, região descrita na investigação como área de influência dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão.


E aqui aparece uma questão que exige explicações públicas.


Quem era o homem que pediu o dinheiro?


Robson Calixto, o “Peixe”, não era um desconhecido que simplesmente apareceu em um gabinete parlamentar para solicitar uma verba. Segundo a investigação relatada pela piauí, ele era apontado como elo entre os mandantes e os executores do assassinato de Marielle Franco. O colaborador Ronnie Lessa afirmou que Calixto o teria apresentado aos mandantes e providenciado a arma utilizada no crime. Calixto negou essas acusações, mas acabou condenado pelo STF, em fevereiro de 2026, por participação na organização criminosa armada ligada aos Brazão.


A própria Polícia Federal identificou a assessora de Flávio como interlocutora direta de Calixto dentro do gabinete.


E as conversas não terminaram na emenda.


Segundo a reportagem, depois da liberação dos recursos, a assessora voltou a procurar Calixto e pediu quatro ingressos para o desfile das campeãs do Carnaval no camarote Arpoador. O relatório da investigação classificou o pedido como solicitação de “vantagem indevida”. As mensagens, contudo, não registram de forma conclusiva que os ingressos tenham sido entregues diretamente a ela.


O dinheiro público também entrou na mira do TCU


O caso se torna ainda mais delicado porque a aplicação dos quase R$ 200 mil posteriormente foi analisada pelo Tribunal de Contas da União.


Segundo a piauí, relatório técnico do TCU encontrou irregularidades na execução do projeto. Entre elas está a contratação de um escritório de advocacia cujo responsável era também presidente do instituto beneficiário. O documento apontou ainda problemas nas cotações de preços e classificou como “no mínimo, inusitada” a situação em que o dirigente da entidade aparecia simultaneamente como gestor do recurso e beneficiário indireto da contratação.


O TCU também apontou indícios de que o procedimento de contratação teria sido conduzido de maneira a conferir aparência de regularidade formal. O instituto contestou as conclusões e afirmou à piauí que a contratação de pessoal próprio é prevista na legislação aplicável às organizações da sociedade civil.


Não é o primeiro capítulo


O episódio também precisa ser analisado dentro do histórico de relações políticas de Flávio Bolsonaro com personagens posteriormente associados às milícias do Rio.


A piauí relembra que, quando era deputado estadual, Flávio apresentou uma moção de louvor a Adriano da Nóbrega e posteriormente foi autor da proposta que concedeu ao ex-capitão da Polícia Militar a Medalha Tiradentes. Anos depois, o Ministério Público apontaria Adriano como líder de uma milícia e integrante do chamado Escritório do Crime.


Além disso, a mãe e a então mulher de Adriano ocuparam cargos no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.


Esses fatos, isoladamente, não provam participação de Flávio Bolsonaro em crimes cometidos por milicianos. Também não há, nas informações divulgadas pela reportagem, prova de que o senador tenha participado do assassinato de Marielle Franco. Essa distinção é fundamental.


Mas há uma diferença entre provar um crime e exigir explicações sobre relações políticas e a destinação de dinheiro público.


A pergunta que permanece


Flávio Bolsonaro é hoje candidato à Presidência da República. Portanto, não se trata apenas de uma questão envolvendo seu passado parlamentar.


O eleitor tem o direito de saber por que um homem posteriormente condenado pelo STF por envolvimento com a organização criminosa ligada ao caso Marielle conseguia tratar diretamente com integrantes do gabinete do senador e solicitar recursos públicos que acabaram sendo destinados a uma entidade localizada em território de influência miliciana.


Também é legítimo perguntar por que uma assessora parlamentar mantinha esse nível de proximidade com Calixto, por que o pedido de recursos foi encaminhado dessa maneira e quais critérios foram utilizados para a destinação da emenda.


Flávio Bolsonaro precisa explicar, de maneira objetiva, o que sabia sobre Robson Calixto, quem apresentou Calixto ao seu gabinete, por que o pedido foi atendido e quais mecanismos foram utilizados para garantir que o dinheiro público chegasse efetivamente ao objetivo declarado.


Não basta dizer que uma emenda é formalmente legal. A questão política é mais ampla: qual era a relação entre o gabinete e o solicitante?


A reportagem da piauí coloca essas perguntas na mesa com base em mensagens apreendidas pela Polícia Federal, documentos de investigação e registros da destinação dos recursos. A Folha de S.Paulo também confirmou a existência das conversas e informou que a assessora continua lotada no gabinete de Flávio.


Em uma eleição presidencial, transparência não deveria ser tratada como inconveniente.


Flávio Bolsonaro precisa explicar suas relações políticas com personagens ligados às milícias do Rio e esclarecer, ponto por ponto, a destinação desses recursos.


Não porque uma relação documentada seja automaticamente prova de crime, mas porque dinheiro público, gabinete parlamentar e um personagem condenado por envolvimento no caso Marielle Franco formam uma combinação grave o suficiente para exigir respostas claras da parte de quem pretende comandar o país.

Foto Reprodução


 
 
 

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