Editorial – Quando o Supremo perde a compostura
- Marcus Modesto
- 31 de jul. de 2025
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Marcus Modesto
Horas depois de ser incluído na lista da Lei Magnitsky — um dos instrumentos mais severos de sanção internacional contra abusos de poder e violações de direitos humanos — o ministro do STF Alexandre de Moraes decidiu aparecer em um estádio de futebol como se nada tivesse acontecido. O gesto poderia ser lido como uma tentativa de normalidade, não fosse o dedo médio erguido em meio à saudação, captado pelas câmeras e interpretado como provocação.
O gesto obsceno, diante da gravidade do que ocorrera horas antes, não é apenas deselegante: é institucionalmente preocupante. Um ministro da mais alta Corte de Justiça do país, alvo de sanções inéditas por parte dos Estados Unidos — um aliado histórico e referência democrática — reage não com explicações, não com sobriedade, mas com deboche. Como se estivesse acima da necessidade de prestar contas, não só aos americanos, mas principalmente à sociedade brasileira.
Trata-se da primeira vez que a Lei Magnitsky, voltada a punir violadores de direitos humanos e corruptos em regimes autoritários, atinge um magistrado de uma democracia consolidada. Esse dado, por si só, já deveria acionar todos os alertas. Em vez disso, o que se viu foi uma resposta digna de arquibancada — não de uma toga.
A cena, assistida ao vivo por milhares e reproduzida em vídeos nas redes sociais, escancara o abismo que separa a liturgia do cargo da postura adotada. Não se trata de política partidária ou de disputas ideológicas — trata-se de decoro. Ou da falta dele.
A quem serve um Supremo Tribunal Federal cujos membros se sentem à vontade para zombar de sanções internacionais enquanto acumulam poder, censuram críticos e atropelam garantias constitucionais em nome de uma justiça “necessária”, porém cada vez menos transparente? O gesto de Moraes não é apenas uma ofensa simbólica: é um sintoma de algo maior, mais profundo e mais perigoso.
Na arquibancada da democracia, não há espaço para juízes que se comportam como torcedores raivosos. O Supremo precisa urgentemente recuperar sua autoridade moral — porque a jurídica, se exercida sem freios, pode virar instrumento de tirania. E isso, sim, seria o verdadeiro crime contra o Estado de Direito.




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