Lula abre Assembleia da ONU com defesa da soberania, críticas às guerras e cobrança por uma nova ordem internacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22), em Nova York, o debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Como ocorre tradicionalmente desde 1955, o Brasil foi o primeiro país a ocupar a tribuna destinada aos chefes de Estado. Logo depois, discursou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em uma fala marcada por críticas aos conflitos armados, defesa do multilateralismo e da soberania nacional, Lula afirmou que o mundo atravessa um dos momentos mais delicados da história recente das Nações Unidas. Segundo a cobertura da CNN Brasil, o presidente iniciou seu pronunciamento destacando que a ONU vem falhando em uma de suas principais missões: impedir que a humanidade seja submetida ao flagelo da guerra.
A defesa da soberania brasileira ocupou espaço central no discurso. O tema ganhou peso diante do conflito diplomático entre Brasília e Washington e das acusações feitas pelo governo brasileiro de que medidas adotadas pelos Estados Unidos poderiam representar interferência em assuntos internos do Brasil. Antes da viagem, o Itamaraty já havia indicado que Lula defenderia a não interferência externa e o respeito à soberania dos países.
O presidente também voltou a defender o multilateralismo como instrumento para enfrentar crises internacionais. A posição está alinhada à política externa brasileira, que reivindica maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões das instituições internacionais e uma reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Guerras e crise internacional
Outro eixo importante do pronunciamento foi a multiplicação dos conflitos armados. Lula defendeu que as disputas internacionais sejam solucionadas por meio da negociação e do respeito ao direito internacional humanitário.
A guerra no Oriente Médio voltou a ocupar lugar de destaque. Durante o discurso, Lula condenou as ações militares em Gaza e classificou a situação como um “genocídio do governo Netanyahu”, segundo relatos publicados após o pronunciamento.
O presidente também abordou os efeitos econômicos das guerras, especialmente sobre alimentos, energia e as populações mais pobres. Antes da viagem, o governo brasileiro havia antecipado que Lula trataria da corrida armamentista e da disputa internacional por recursos naturais estratégicos.
Brasil defende reforma da ONU
Lula aproveitou a tribuna para reafirmar a necessidade de mudanças na estrutura das Nações Unidas. O governo brasileiro defende há anos a ampliação do Conselho de Segurança, com maior representação de países da África, América Latina e Ásia.
A discussão ocorre em uma Assembleia marcada também pela transição na Secretaria-Geral da ONU. António Guterres participa de sua última semana de alto nível à frente da organização, já que seu segundo mandato termina neste ano.
A própria ONU definiu como tema da 81ª Assembleia Geral a frase “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. O encontro reúne representantes dos 193 Estados-membros entre 22 e 28 de setembro.
Clima, fome e desigualdade
A agenda ambiental também esteve entre os assuntos associados ao discurso brasileiro. Lula deve apresentar o Brasil como defensor de um modelo de desenvolvimento que combine crescimento econômico e preservação ambiental, em continuidade à agenda climática defendida pelo país nos últimos anos.
O combate à fome e à insegurança alimentar, a redução das desigualdades e a necessidade de ampliar investimentos sociais também fazem parte da agenda apresentada pelo presidente.
Em Nova York, Lula chegou a afirmar, em encontro com o prefeito Zohran Mamdani, que o mundo está destinando grandes volumes de recursos para armamentos enquanto os investimentos para combater a fome e a pobreza permanecem insuficientes.
Inteligência artificial e regulação das plataformas
A transformação tecnológica também apareceu entre os grandes temas da Assembleia. Lula defendeu a necessidade de regras para o ambiente digital e deve relacionar a discussão à proteção de crianças e mulheres, além dos desafios provocados pelo avanço da inteligência artificial.
A questão ganha importância em uma Assembleia na qual a própria ONU colocou a inteligência artificial entre os principais desafios da governança internacional. António Guterres também abordou o tema em seu pronunciamento de abertura, cobrando maior responsabilidade dos governos diante do avanço da tecnologia.
Um discurso internacional com reflexos no Brasil
Embora o governo brasileiro tenha afirmado que o discurso não seria utilizado como peça eleitoral, a fala ocorre a apenas 12 dias do primeiro turno das eleições brasileiras. Reportagens anteriores ao pronunciamento apontavam que a defesa da soberania e a crítica a eventuais interferências estrangeiras teriam também forte repercussão no debate político brasileiro.
Lula, no entanto, não citou nominalmente Donald Trump no discurso, segundo as informações divulgadas antes da fala. A estratégia anunciada pela diplomacia brasileira era tratar da soberania e da não interferência externa sem transformar o pronunciamento em um confronto direto com o presidente americano.
O pronunciamento marcou a décima participação de Lula como presidente do Brasil na abertura do debate geral da Assembleia Geral da ONU. A presença brasileira na abertura mantém uma tradição diplomática iniciada na década de 1950 e consolidada em 1955.
Em um cenário internacional marcado por guerras, disputas comerciais, crise de confiança nas instituições multilaterais, avanço da inteligência artificial e agravamento das tensões geopolíticas, Lula utilizou a tribuna da ONU para defender a negociação, a soberania dos países, a reforma das instituições internacionais e uma atuação mais coordenada diante dos grandes problemas globais.




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