Massacre de jornalistas em Gaza expõe guerra contra a verdade
- Marcus Modesto
- 12 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
A morte de seis jornalistas no último domingo — cinco deles vinculados à rede Al-Jazeera — na Cidade de Gaza, escancara o nível extremo da violência contra profissionais da imprensa desde o início da ofensiva israelense no enclave palestino. Segundo o Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ), já são 192 mortos desde outubro de 2023. É o maior número registrado em um único conflito armado na história moderna, quase triplicando o total somado das duas Guerras Mundiais.
O saldo revela não apenas o custo humano, mas uma escalada inédita contra a liberdade de informar. Enquanto isso, Israel tenta justificar parte das mortes com acusações não comprovadas, ao mesmo tempo em que avalia flexibilizar — em termos ainda vagos — o bloqueio à entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.
Repórter marcado para morrer
Entre as vítimas está Anas al-Sharif, conhecido por denunciar abusos da ocupação israelense. Em julho, ele já alertava que acusações de ligação com o Hamas, feitas sem provas, funcionavam como sentença de morte. “Eles me acusam de terrorista porque querem me assassinar moralmente”, afirmou ao CPJ. Poucos meses depois, o alerta se concretizou.
Mortes e prisões sem precedentes
Além dos mortos, o CPJ contabiliza 90 jornalistas presos por Israel desde outubro, número que coloca o país atrás apenas da China em detenções. A maioria das prisões ocorreu em Gaza e na Cisjordânia. Comparações históricas dão a dimensão da tragédia: segundo a Universidade Brown, 69 jornalistas morreram nas duas Guerras Mundiais, 71 nos conflitos no Sudeste Asiático, e 19 desde a invasão russa da Ucrânia. O cenário atual, portanto, é sem paralelo.
Impunidade como política de guerra
A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) já acionou o Tribunal Penal Internacional quatro vezes desde o início da guerra, acusando Israel de um “massacre sem precedentes” contra jornalistas. Para a entidade, o bloqueio à imprensa estrangeira e a matança de quase 200 profissionais não são efeito colateral, mas parte de uma estratégia: sufocar a informação, silenciar vozes palestinas e, com elas, apagar a própria história do enclave.
Promessas sob censura
O premiê Benjamin Netanyahu declarou que pretende permitir a entrada de mais jornalistas estrangeiros em Gaza, para “verem com os próprios olhos” as ações israelenses. Mas a promessa soa oca. Experiências anteriores mostram que a cobertura, quando permitida, é rigidamente controlada por escoltas militares e submetida à censura. A “abertura” pode ser apenas mais um roteiro encenado para legitimar a versão oficial.
Enquanto quase 200 profissionais da imprensa pagam com a vida por contar a realidade, permanece a pergunta incômoda: em Gaza, quem controla as imagens, controla a verdade — e decide quais histórias serão contadas, e quais serão enterradas junto com quem as registrou.




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