SAF do Barra Mansa FC avança, mas acordo levanta questionamentos sobre transparência, patrimônio e direitos históricos
- Marcus Modesto
- 25 de jan.
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A criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Barra Mansa Futebol Clube está próxima de ser oficializada. Após reunião realizada nesta semana, dirigentes do clube e representantes da empresa MDE Sports chegaram a um entendimento que praticamente sacramenta a mudança do modelo de gestão do tradicional Leão do Sul.
Um dos principais entraves era um acordo envolvendo a Promotoria de Justiça, o Clube Recanto, a Prefeitura de Barra Mansa e o Barra Mansa FC, relacionado a pendências financeiras históricas. A proposta apresentada teria sido aceita pelas partes, restando, segundo apuração, apenas a formalização final com a assinatura do contrato.
A empresa que assume o comando da SAF é a MDE Sports & Investment Associates LTDA – EPP, formada por jovens empresários de Barra Mansa. O detalhe que chama atenção é o curto tempo de existência da companhia: fundada em 14 de julho de 2025, a empresa tem pouco mais de seis meses de atividade formal, com sede no bairro Verbo Divino e atuação registrada como “clubes sociais, esportivos e similares”.
Apesar da juventude da empresa e da ausência de histórico público relevante no futebol profissional, a MDE Sports já recebeu as chaves do Estádio Leão do Sul, antes mesmo da assinatura definitiva do contrato. A medida permitiria o início das obras exigidas pelos laudos técnicos, que precisam ser atualizados anualmente para que o estádio possa sediar partidas oficiais.
No entanto, a entrega antecipada das chaves de um patrimônio esportivo do município levanta questionamentos importantes. Sem a SAF formalmente constituída, permanecem dúvidas sobre quem responde legalmente pelo estádio, eventuais danos estruturais e investimentos iniciados antes da conclusão do acordo.
Outro ponto sensível — e até o momento pouco debatido publicamente — é a situação dos sócios remidos e dos proprietários do Barra Mansa Futebol Clube. São eles que, historicamente, sustentaram o clube, ajudaram a construir seu patrimônio e mantêm vínculos legais e afetivos com a instituição. Até agora, não foram apresentados esclarecimentos detalhados sobre como esses sócios serão impactados pela criação da SAF, se terão seus direitos preservados ou se participarão, ainda que indiretamente, das decisões estratégicas.
A ausência de informações sobre indenizações, garantias estatutárias ou mecanismos de proteção aos sócios remidos amplia a sensação de insegurança em torno do processo. Em outras SAFs pelo país, conflitos semelhantes acabaram judicializados justamente pela falta de diálogo e transparência com quem detém direitos históricos sobre os clubes.
Em relação às categorias de base, a minuta do acordo prevê a manutenção das divisões de formação, que seguirão sob gestão de outro grupo e permanecerão radicadas no Estado do Rio de Janeiro. Ainda assim, não há clareza sobre a integração entre base e time profissional, tampouco sobre os investimentos previstos.
Fontes ouvidas afirmam que a Prefeitura de Barra Mansa aprova o acordo, mas até o momento não houve divulgação oficial dos termos, valores envolvidos, contrapartidas exigidas da futura SAF ou prazos para execução das obras no Estádio Leão do Sul.
Com a Série C do Campeonato Carioca prevista para começar em abril, a expectativa é que a MDE Sports já esteja à frente do Barra Mansa FC na competição. O calendário apertado, porém, não pode servir de justificativa para decisões apressadas.
A transformação em SAF pode representar uma oportunidade de reestruturação esportiva e financeira para o Leão do Sul. No entanto, sem a apresentação pública do contrato, das garantias legais, da capacidade econômica do grupo gestor e, sobretudo, da proteção aos direitos dos sócios remidos e proprietários, o processo ainda exige cautela. Transparência, nesse caso, não é detalhe — é obrigação.
Foto Arquivo




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