Saquarema bilionária: quando o dinheiro do petróleo não vira bem-estar
- Marcus Modesto
- 21 de jan.
- 2 min de leitura
Saquarema virou um caso extremo no Brasil. Com uma arrecadação bilionária impulsionada pelos royalties do petróleo, o município passou a figurar no topo do ranking nacional de PIB per capita. No papel, é a cidade mais rica do país. Na rua, porém, a realidade insiste em desmentir os números.
A riqueza que infla as estatísticas oficiais não se traduz em renda, emprego nem qualidade de vida para a maioria da população. O morador médio vive com pouco mais de dois mil reais por mês, enfrenta bairros sem saneamento adequado, convive com ruas de terra e depende de serviços públicos sobrecarregados. O contraste entre cofres cheios e cotidiano precário é gritante.
O crescimento acelerado, bancado pelo petróleo, transformou a cidade em um laboratório de obras simultâneas, mas também de improviso urbano. Falta planejamento, sobra pressa. Novos equipamentos públicos surgem sem equipes suficientes para operá-los, enquanto áreas periféricas continuam esquecidas. A sensação é de que Saquarema cresce para fora, mas não se organiza por dentro.
A economia local permanece frágil e dependente. Fora o setor público e o turismo sazonal, há pouca geração de empregos formais. A informalidade domina quase metade das ocupações, o que evidencia a ausência de uma política consistente de desenvolvimento econômico. O petróleo paga a conta hoje, mas não constrói alternativas para amanhã.
O risco dessa dependência é conhecido e ignorado. Royalties não são eternos. Quando a fonte secar — ou diminuir —, restará uma cidade inchada, com despesas elevadas e pouca capacidade de se sustentar com receitas próprias. Ainda assim, a estratégia de diversificação econômica avança lentamente, sem clareza ou metas concretas.
Na saúde, o dinheiro não impediu a sobrecarga. O hospital municipal passou por reformas, mas continua operando no limite, pressionado por uma população que cresce mais rápido do que a rede de atendimento. Na educação, houve melhora nos indicadores, mas nada que justifique a disparidade entre arrecadação recorde e resultados apenas medianos.
O saneamento é outro ponto sensível. Lagoas poluídas, canais degradados e metas que empurram soluções para a próxima década revelam um problema estrutural. A fragmentação do serviço entre concessionárias diferentes só aumenta a sensação de desorganização e lentidão.
Saquarema se tornou rica sem se tornar desenvolvida. O dinheiro existe, mas falta projeto de cidade. Falta decidir se os royalties serão apenas combustível para obras visíveis ou se servirão para construir bases sólidas: emprego, saneamento, planejamento urbano e sustentabilidade econômica.
Hoje, Saquarema é o retrato de uma contradição brasileira clássica: abundância de recursos, escassez de resultados. E o tempo, esse sim, não corre a favor.




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