Tragédia anunciada em Trindade: até quando banhistas continuarão dividindo espaço com lanchas?
A morte do trabalhador e banhista Paulo Borashi, de 60 anos, conhecido como “Caveira”, atingido por uma lancha na Praia do Rancho, em Trindade, distrito de Paraty, não pode ser tratada apenas como mais um acidente de verão em pleno inverno. Ela escancara um problema antigo, conhecido por moradores, comerciantes, pescadores e turistas: a convivência perigosa entre embarcações e pessoas dentro da área de banho.
A Marinha instaurou um inquérito para apurar as causas do acidente e informou que a embarcação e seu condutor já foram identificados. A Polícia Civil também abriu investigação. Isso é necessário, mas insuficiente. A pergunta que precisa ser feita é outra: por que foi preciso uma morte para que o assunto voltasse ao centro das discussões?
Trindade é um dos principais cartões-postais de Paraty e recebe milhares de visitantes. O intenso tráfego de embarcações turísticas é uma realidade conhecida há anos. Em locais de grande concentração de banhistas, a fiscalização precisa ser permanente, com rotas náuticas bem definidas, áreas de exclusão para barcos, sinalização eficiente e punição rigorosa para quem desrespeita as normas.
Não basta lamentar. Não basta emitir notas oficiais após a tragédia. A prevenção deveria ser a prioridade, e não a reação depois que uma família perde um ente querido.
A morte de Paulo Borashi representa uma perda irreparável para a comunidade de Trindade, mas também deve servir como um alerta definitivo às autoridades municipais, à Marinha e aos órgãos responsáveis pela segurança da navegação. Se nada mudar, a próxima tragédia será apenas questão de tempo.
O turismo é uma das maiores riquezas de Paraty, mas desenvolvimento turístico não pode significar flexibilização da segurança. O mar precisa ser um espaço de lazer, trabalho e contemplação — nunca um ambiente onde banhistas convivam diariamente com o risco de serem atropelados por embarcações.
A investigação apontará responsabilidades individuais. Mas existe também uma responsabilidade coletiva: garantir que praias movimentadas tenham fiscalização compatível com o fluxo de pessoas. Enquanto isso não acontecer, acidentes como esse continuarão deixando de ser fatalidades para se tornarem consequências previsíveis da negligência.




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