Trump lança Conselho de Paz em Davos e proposta provoca reação cautelosa da comunidade internacional
- Marcus Modesto
- 22 de jan.
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve oficializar nesta quinta-feira (22) a Carta Constitutiva do recém-criado Conselho de Paz e presidir a primeira reunião formal do organismo. O ato está programado para Davos, na Suíça, durante um encontro que reúne autoridades políticas e líderes econômicos de diversos países.
Anunciado em 2025, o conselho surgiu inicialmente como uma iniciativa voltada ao encerramento da guerra na Faixa de Gaza. Com o avanço das discussões, no entanto, Trump ampliou o escopo da proposta, defendendo um mecanismo internacional capaz de intervir em conflitos armados e crises políticas em diferentes regiões do mundo.
A ampliação de objetivos e, principalmente, as declarações do presidente norte-americano sugerindo que o novo órgão poderia substituir a Organização das Nações Unidas colocaram a iniciativa sob escrutínio. Diplomatas e especialistas passaram a apontar riscos de sobreposição institucional e questionar a concentração de poder prevista no desenho do conselho.
Desconforto europeu e cautela da ONU
Governos europeus demonstraram incômodo com trechos da minuta da Carta Constitutiva que atribuem forte protagonismo ao presidente dos Estados Unidos. Para esses líderes, o modelo proposto enfraquece princípios do multilateralismo construídos no período pós-Segunda Guerra Mundial.
A ONU, por sua vez, reagiu com moderação. Um porta-voz afirmou que o secretário-geral António Guterres reconhece a liberdade dos Estados-membro de participarem de diferentes fóruns internacionais, destacando que as Nações Unidas continuarão exercendo normalmente suas atribuições.
Uma cópia preliminar da carta, obtida pela agência Reuters, define que o Conselho de Paz terá como missão central a promoção da paz global e a atuação direta na mediação de conflitos. O texto prevê mandatos de três anos para os países integrantes, exceto para aqueles que optarem por contribuir com US$ 1 bilhão.
Segundo apuração da CNN Brasil, um integrante do governo norte-americano explicou, sob anonimato, que o valor não seria obrigatório, mas garantiria um assento permanente no conselho. Ainda conforme essa fonte, a adesão inicial não exige qualquer aporte financeiro.
Liderança sem prazo definido
Outro ponto que gera controvérsia diz respeito à presidência do conselho. A minuta estabelece que Trump permanecerá no comando por tempo indeterminado, inclusive após o término de um eventual segundo mandato presidencial. A substituição só ocorreria em caso de renúncia ou incapacidade, mediante votação unânime do Conselho Executivo.
Para críticos, a regra reforça a centralização de poder e limita mecanismos de alternância na liderança, o que contrasta com práticas adotadas em organismos multilaterais tradicionais.
Convites, adesões e recusas
Washington enviou convites a cerca de 50 países e lideranças internacionais. De acordo com informações da Casa Branca repassadas à CNN, aproximadamente 35 já aceitaram participar.
Entre os convidados está o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que analisa a proposta com cautela. Trump declarou publicamente que gostaria de ver Lula com um “papel relevante” no conselho, sinalizando interesse em ampliar a presença de países do Sul Global.
O papa Leão XIV também recebeu convite, segundo o cardeal Pietro Parolin. O Vaticano, no entanto, indicou que precisa de tempo para avaliar a proposta, adotando uma postura prudente.
Egito, Arábia Saudita, Catar, Paraguai e Israel já confirmaram adesão. Outros países, como Reino Unido e Japão, ainda não se manifestaram oficialmente. A França, por outro lado, recusou o convite, alegando dúvidas sobre a compatibilidade do Conselho de Paz com a Carta da ONU, o que mantém aceso o debate sobre a legitimidade e os limites da nova iniciativa no cenário internacional.




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