Quando o direito de ouvir vira uma espera sem fim: pacientes de Volta Redonda enfrentam fila por aparelhos auditivos pelo SUS
Denúncia expõe a demora para pacientes de Volta Redonda que dependem do SUS e precisam recorrer à referência regional em Barra Mansa
Para quem ouve normalmente, esperar alguns meses pode parecer apenas mais uma burocracia do sistema público de saúde. Para quem perdeu a capacidade de ouvir, porém, a espera por um aparelho auditivo significa muito mais: é ficar afastado da família, ter dificuldades para trabalhar, estudar, conversar e até realizar atividades simples do cotidiano.
É justamente essa realidade que atinge pacientes de Volta Redonda que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir um aparelho auditivo.
A denúncia chama atenção para um problema que ultrapassa os limites de um único município. A estrutura de saúde auditiva do Médio Paraíba é regionalizada e tem como referência a Santa Casa de Barra Mansa, responsável pelo atendimento de pacientes encaminhados de diferentes cidades da região.
A própria Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro identifica a Santa Casa de Barra Mansa como serviço de referência na modalidade auditiva. A documentação estadual registra Barra Mansa como referência de média e alta complexidade em saúde auditiva para os municípios do Médio Paraíba.
Volta Redonda está no centro do problema
É importante deixar claro: a denúncia não é sobre uma fila genérica no Médio Paraíba. Ela envolve diretamente pacientes de Volta Redonda que precisam do SUS para ter acesso ao aparelho auditivo.
Esses moradores dependem da rede pública para serem avaliados, encaminhados e, finalmente, receberem o equipamento necessário para voltar a ouvir adequadamente.
O problema é que o caminho entre a necessidade médica e a entrega do aparelho pode se transformar em uma espera prolongada.
E quando existe uma demanda reprimida, a pergunta inevitável é: quanto tempo um cidadão pode esperar para ter de volta um sentido essencial para sua vida?
Barra Mansa concentra a referência regional
A situação também revela uma característica importante da organização da saúde pública no Médio Paraíba.
A Santa Casa de Barra Mansa possui um serviço de Saúde Auditiva e aparece oficialmente na rede estadual como referência para esse atendimento.
Isso significa que pacientes de cidades como Volta Redonda não necessariamente resolvem o problema dentro do próprio município.
O paciente entra na rede de saúde, passa pelo atendimento e precisa seguir o fluxo de referência e contrarreferência estabelecido pelo SUS.
Na prática, portanto, uma dificuldade de financiamento ou de capacidade de atendimento na unidade de referência pode produzir consequências em vários municípios simultaneamente.
Mais de 3 mil pessoas na fila
A dimensão do problema ficou ainda mais evidente em maio de 2026.
Segundo informações divulgadas pelo deputado estadual Jari Oliveira após visita ao Centro de Saúde Auditiva de Barra Mansa, mais de 3 mil pessoas aguardavam na fila pela primeira prótese auditiva ou pela reposição do equipamento.
Na ocasião, também foi informado que havia uma dívida superior a R$ 1,2 milhão do Governo do Estado, relacionada a repasses de 2024, situação apontada como fator que estaria dificultando a aquisição de novos aparelhos.
É um número que deveria provocar uma reação imediata das autoridades.
Porque não estamos falando de uma fila para um procedimento meramente burocrático.
Estamos falando de pessoas que precisam ouvir.
Quando a fila deixa de ser estatística
Uma fila de três mil pessoas pode parecer apenas um número em uma planilha.
Mas cada número representa uma história.
É o idoso que não consegue acompanhar uma conversa dentro de casa.
É o trabalhador que tem dificuldade para se comunicar no emprego.
É a criança ou o adolescente que precisa ouvir adequadamente para acompanhar as atividades escolares.
É a família que precisa repetir várias vezes aquilo que acabou de falar.
É uma pessoa que, aos poucos, pode se afastar do convívio social simplesmente porque não consegue mais participar das conversas.
Por isso, quando o Estado deixa uma pessoa esperando indefinidamente por um aparelho auditivo, não está apenas atrasando a entrega de um equipamento.
Está adiando a recuperação da autonomia e da qualidade de vida daquele cidadão.
O problema não termina na porta da Santa Casa
Também é preciso fazer uma distinção importante.
A existência da fila na referência regional não significa, automaticamente, que a responsabilidade pelo problema seja exclusivamente da Santa Casa de Barra Mansa.
A própria estrutura do SUS demonstra que o atendimento é regionalizado e envolve municípios, Estado e União.
A Santa Casa é a unidade que presta o serviço, mas o funcionamento adequado da rede depende de financiamento, pactuação, regulação, aquisição dos aparelhos e repasses públicos.
Por isso, quando faltam recursos ou os repasses não acontecem regularmente, o impacto chega diretamente ao paciente.
E é exatamente aí que a discussão precisa sair dos gabinetes e chegar à população.
E Volta Redonda?
É nesse ponto que a denúncia precisa ser tratada com a devida dimensão.
Volta Redonda é uma das principais cidades do Médio Paraíba e possui uma população que depende de uma rede regionalizada de saúde.
Se um morador da cidade precisa de um aparelho auditivo pelo SUS e não consegue recebê-lo em tempo razoável, não adianta simplesmente apontar para a unidade que realiza o atendimento.
É preciso perguntar:
Quanto Volta Redonda está encaminhando?
Quantos pacientes aguardam?
Qual é o tempo médio de espera?
Quantos aparelhos deveriam ser entregues e quantos efetivamente foram entregues?
Quanto dinheiro está sendo repassado para garantir o atendimento?
E, principalmente:
quantos moradores de Volta Redonda estão hoje esperando para voltar a ouvir?
Essas informações precisam ser públicas e transparentes.
Um direito não pode depender da sorte
A Constituição Federal estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado.
O SUS foi criado justamente para garantir acesso universal à saúde.
Mas existe uma diferença enorme entre ter o direito reconhecido no papel e conseguir exercê-lo na vida real.
Quando uma pessoa precisa esperar meses ou anos por um equipamento essencial, o direito começa a perder sua efetividade.
E é justamente aí que a sociedade precisa cobrar.
Não se pode aceitar que uma pessoa que depende do SUS seja transformada em um número de fila.
Não se pode normalizar a chamada “demanda reprimida”.
E não se pode tratar como algo secundário um equipamento que pode determinar se uma pessoa conseguirá conversar com seus filhos, ouvir uma orientação médica, trabalhar, estudar ou simplesmente participar da vida social.
A pergunta que fica
A situação dos aparelhos auditivos precisa ser esclarecida pelas autoridades responsáveis.
Quantos moradores de Volta Redonda estão atualmente aguardando?
Qual é o tempo médio de espera?
Quantos aparelhos estão disponíveis?
Quantos foram entregues nos últimos meses?
Qual é o valor dos repasses destinados ao serviço?
E por que uma fila dessa dimensão chegou a existir?
A população de Volta Redonda merece respostas.
Porque, quando um direito básico vira uma fila sem fim, não é azar do cidadão. É sinal de que alguma coisa na gestão da política pública precisa ser explicada, corrigida e, sobretudo, enfrentada.
Quem espera por um aparelho auditivo não está pedindo um privilégio.
Está pedindo para ouvir.
Foto Reprodução




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